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O CINEMA DE ALEXANDER
MACKENDRICK
Por FERNANDO ALBAGLI
9/9/2002

Continuando seu trabalho de enriquecer as telinhas brasileiras com o que há de melhor no mundo do cinema, o gerente de programação do Telecine, Sérgio Leeman, preparou no canal Telecine Classic uma inédita mostra de um diretor e roteirista quase desconhecido de muita gente, principalmente das novas gerações: Alexander Mackendrick. De 9 a 15 de setembro, serão exibidos sete dos nove filmes que dirigiu. A seguir, você confere uma breve biofilmografia do diretor e detalhes dos sete filmes programados.
BIOFILMOGRAFIA
Alexander Mackendrick nasceu no dia 8 de setembro de 1912, em Boston, quando seus pais, escoceses, visitavam os Estados Unidos. O casal voltou à terra natal com o filho, e este estudou na Escola de Arte de Glasgow. Iniciou a vida profissional trabalhando em animações para publicidade. Aos 25 anos, começou a escrever roteiros. Em 1938, já dirigia alguns curtas-metragens e teve uma boa experiência na produção de documentários, durante a Segunda Guerra Mundial. Foi um dos principais responsáveis pela fama dos Estúdios Ealing como produtora de comédias.
Depois de O Quinteto da Morte, seu filme mais famoso, transferiu-se para os Estados Unidos, onde seu primeiro filme - A Embriaguez do Sucesso - apesar de fracasso de público e crítica na época, pode ser hoje considerado um dos grandes filmes americanos do final dos anos 1950. Em 1969, depois de apenas mais alguns filmes, aceitou o cargo de diretor do Departamento de Cinema do Instituto de Artes da Califórnia, que exerceu até pouco antes de morrer, em 22 de dezembro de 1993.
OS FILMES DA MOSTRA (sempre às 22h, no Telecine
Classic)
9 de setembro, segunda-feira (repete dia 10, às 10h):
ALEGRIAS A GRANEL (Whisky Galore),1949, com Basil Radford, Joan Greenwood, James Robertson Justice, Catherine Lacey, Bruce Seton. Narrador: Finlay Currie (não creditado). Roteiro: Compton MacKenzie e Angus MacPhail, baseado no romance de MacKenzie. Produção: Michael Balcon, para a Ealing. Fotografia: Gerald Gibbs. Música: Ernest Irving. Montagem: Charles Crichton (não creditado) e Joseph Sterling. Direção de arte: Jim Morahan. Filmado nos estúdios da Ealing, em Londres, com locações na ilha de Barra, na Escócia. Indicado para o prêmio Bafta de Melhor Filme, pela Academia Britânica. PB. 82 minutos. Livre.
Um navio naufraga perto de uma ilha, na Escócia, com um carregamento de 50 mil caixas de uísque. Como bons escoceses, os ilhéus não resistem à tentação de "salvar" o máximo que conseguem carregar. Mas o Capitão Waggett (Radford), chefe da guarda, não está de acordo com isso, e lhes ordena que devolvam tudo, até a última garrafa. Eles logo mostram como são criativos para arranjar insólitos lugares onde esconder o preciosíssimo líquido - desde reservatórios de água, até berços de bebês. Quando as autoridades se aproximam do principal esconderijo, na praia, um plano é elaborado para confundi-las, dando tempo para que as garrafas sejam "salvas".
Claro que não vamos contar o final. Mas podemos adiantar que a idéia da história é baseada em fatos reais. O navio S/S Politician realmente naufragou perto de Eriskay, nas ilhas Hébridas, Escócia, em 5 de fevereiro de 1941, depois de navegar dois dias, saindo de Liverpool em direção à Jamaica. Sua carga era de 250 mil garrafas de uísque, e os nativos conseguiram apanhar muitas delas, até a chegada da milícia local. Até pouco tempo, garrafas ainda eram encontradas flutuando em praias da ilha ou encalhadas na areia. Em 1993, 14 delas, salvas do naufrágio original, foram leiloadas, em Glasgow, por mais de 12 mil libras. No filme, os personagens são muito bem construídos - o homem dominado pela mãe temente a Deus, o jovem casal, o atendente do bar...
O orçamento acabou estourado, não pela inexperiência do diretor e do co-produtor Monja Danischewsky, ambos estreantes, mas pelas condições do tempo, no verão de 1948, considerado um dos mais inclementes da região. Havia uma grande diferença de opinião entre Mackendrick e Danischewsky, na solução da história. Enquanto o diretor, criado dentro de rígidos princípios calvinistas, simpatizava com Waggett, o co-produtor, judeu russo de pensamento liberal, se inclinava mais a adotar o ponto de vista dos moradores da ilha. É até surpreendente como o humor do filme funciona tão bem, já que os dois - como Danischewsky testemunha em sua autobiografia - brigaram sempre, desde passagens do roteiro até o corte final. E esse humor se apoia justamente na diferença de valores entre Waggett e os nativos e a falta de entendimento entre eles.
Naquela época, a hipocrisia americana não admitia nome de bebida em título de filme. Por isso, lá, o filme se chamou Tight Little Island. Já na França, teve o título Whisky a Go-Go, e teve tanto sucesso que até uma casa noturna adotou o nome.
10 de setembro, terça-feira (repete dia 11, às 8h20min):
O HOMEM DO TERNO BRANCO (The Man in the White Suit),1951, com Alec Guinness, Joan Greenwood, Cecil Parker, Michael Gough. Roteiro: Mackendrick, John Dighton e Roger MacDougall, baseado em peça de MacDougall. Produção: Michael Balcon e Sidney Cole, para a Ealing. Fotografia: Douglas Slocombe. Música: Benjamin Frankel. Montagem: Bernard Gribble. Direção de arte: Jim Morahan. Indicado para o Oscar de Roteiro e para o Bafta de Melhor Filme e Melhor Filme inglês. PB. 84 minutos. Livre.
Narrado em flashback, é uma sátira da indústria inglesa, com uma visão irônica tanto do capital quanto do trabalho, um tema mais ambicioso que o das outras comédias da Ealing. Alec Guinness, na época o mais camaleão dos atores, é Sidney Stratton, jovem químico de uma indústria têxtil, cujo serviço mais importante é limpar os tubos de ensaio do laboratório, apesar de ser um ótimo aluno, em Cambridge. Trabalhando por conta própria, ele consegue criar uma fibra que não suja nem se desgasta. Quando os industriais percebem que isso pode destruir seu negócio, juntam forças e tentam convencer o rapaz a assinar um documento renunciando aos seus direitos. Ele recusa. Tentam, então, mantê-lo prisioneiro, mas ele escapa e procura auxílio no sindicato. Seus colegas, porém, com medo de perder o emprego, ficam do lado dos patrões. No clímax do filme, Sidney é perseguido por todos, em seu incrível terno branco, feito com o tecido que ele criou.
Guinness mantém um certo distanciamento de seu personagem e, até o envolvimento romântico com Daphne (Greenwood), filha do patrão, não o aproxima mais do espectador, que não chega a qualquer conclusão sobre a sua verdadeira motivação. Entre extravagante, como certas comédias malucas americanas, e satírico, com pitadas de humor negro, o filme tem um final propositadamente ambíguo, original como poucos filmes de hoje. Curioso é que Sidney Stratton é um personagem secundário no livro. Foi Mackendrick que o elevou ao posto principal da história. Além do grande desempenho de Guinness, todo o elenco funciona às maravilhas. Mas é bom chamar a atenção do espectador para Sir John Kierlaw, interpretado por Ernest Thesiger, velho ator de grandes filmes de James Whale, na década de 1930. Ele está excelente como o decrépito mas todo-poderoso chefão da indústria, que decreta o fim de Sidney para o bem dos negócios. Alexander Mackendrick em grande forma, como roteirista e diretor.
11 de setembro, quarta-feira (repete dia 12 às 9h55min):
O MARTÍRIO DO SILÊNCIO (Mandy),1952, com Phyllis Calvert, Jack Hawkins, Terence Morgan, Dorothy Allison, Mandy Miller. Co-direção de Fred F. Sears. Roteiro: Nigel Balchin e Jack Whittingham, baseado no romance The Day Is Ours, de Hilda Lewis. Produção: Michael Balcon e Leslie Norman, para a Ealing. Fotografia: Douglas Slocombe. Música: William Alwyn. Montagem: Seth Holt. Direção de arte: Jim Morahan. Indicado para os prêmios Bafta de Melhores Ator inglês (Hawkins), Atriz inglesa (Calvert), Filme e Filme inglês. Prêmios de novatas promissoras para Dorothy Allison e Mandy Miller. Prêmio Especial do Júri de Melhor Diretor, no Festival de Veneza e indicado para o Leão de Ouro. PB. 93 minutos. Livre.
Único filme de Mackendrick para a Ealing sem ser comédia, conta a história de Mandy, menina de família classe média que nasceu completamente surda. Quando ela chega à idade escolar, a família está quase desfeita. Mandy é matriculada numa escola para surdos, dirigida por um dinâmico e talentoso professor, brilhantamente interpretado por Hawkins. As cenas na escola foram filmadas na Royal Residential School, em Manchester. A abordagem quase de documentário, herança da experiência de Mackendrick nos filmes que produziu na Segunda Guerra, é um pouco afetada pelas características de telefilme dramalhão da própria história. Mas o final é bastante honesto, sem apelações, quando deixa claro que Mandy não conseguirá superar a deficiência, mas poderá aprender a conviver com ela.
Quem interpreta a surdinha é a pequena Mandy Miller, de sete anos, que tinha começado a carreira no ano anterior, em O Homem do Terno Branco.
Segundo o crítico Dave Kent, do Chicago Reader, "o que parece, a princípio, um típico drama da época - família com filho deficiente - revela-se como uma viva e tocante abordagem das falhas de comunicação na estrutura familiar inglesa. Os ótimos desempenhos se juntam a um estilo de câmera subjetiva para criar uma das poucas experiências fortemente melodramáticas do cinema britânico". Nos Estados Unidos, chamou-se Crash of Silence.
12 de setembro, quinta-feira (repete dia 13 às 9h40min):
UM IANQUE NA ESCÓCIA (The Maggie),1954, com Paul Douglas, Alex Mackenzie, James Copeland. Roteiro: William Rose, de uma história de Mackendrick. Produção: Michael Truman, para a Ealing, Michael Balcon Studios e Rank Organization. Fotografia: Gordon Dines. Música: John Addison. Montagem: Peter Tanner. Direção de arte: Jim Morahan. Indicado para os Baftas de Melhor Filme, Melhor Filme inglês e Melhor Roteiro inglês. PB. 93 minutos. Livre.
Filmado na Escócia, em Argyll, Glasgow e ilha de Islay. O roteirista é o mesmo de Genevieve, sucesso da Rank, no ano anterior, dirigido por Henry Cornelius, sobre uma hilariante corrida de automóveis antigos. De calhambeques, passamos para velhos barcos. Maggie é um vaporzinho usado para transportar pequenas cargas. O rico americano Calvin B. Marshall (Douglas) está procurando baratear o preço do transporte de sua mobília para uma nova casa de veraneio, nas ilhas. O comandante Mactaggart (Mackenzie) convence-o a levar tudo em seu velho barco. Quando percebe o logro em que caiu, Calvin tenta reaver a mobília, mas já é tarde. Foi um castigo para o magnata que, até aprender a lição, acreditava que tudo pode ser comprado, desde que por um preço satisfatório.
O crítico inglês Paul Thomas, da Time Out, acredita que Um Ianque na Escócia é "a contribuição ostensiva de Mackendrick para o ciclo "velho escroque", que a Ealing tinha começado, no ano anterior, com The Titfield Thunderbolt", de Charles Crichton. O capitão, embora um patife astucioso, é apresentado como um amável velhote, e a Maggie continua suas viagens, graças à relutante filantropia de sua vítima. Mackendrick e Rose aproveitam para explorar as contradições de Velho e Novo Mundo. Mas outro inglês, George Perry, afirma que, "apesar da saudável atmosfera escocesa, o filme é a menor comédia do diretor".
13 de setembro, sexta-feira (repete dia 14, às 7h50min)
QUINTETO DA MORTE (The Ladykillers),1955, com Alec Guinness, Katie Johnson, Cecil Parker, Peter Sellers, Herbert Lom, Danny Green. Roteiro: William Rose. Produção: Michael Balcon. Co-produção: Seth Holt. Fotografia: Otto Heller. Música: Tristram Cary. Montagem: Jack Harris. Direção de arte: Jim Morahan. Indicado para Oscar de Roteiro e para o Bafta de Filme e Filme inglês, ganhando Bafta nas categorias Atriz inglesa (Johnson) e Roteiro inglês. Cores. 90 minutos. Livre.
A estréia do filme aconteceu no mesmo mês em que foi anunciada a venda da Ealing para a BBC. Ele forma, com As Oito Vítimas, de Robert Hamer, também com Guinness, a dupla de comédias de mais humor negro da Ealing, e é o melhor filme de Alexander Mackendrick. A personagem central é a viúva Louisa Wilberforce, encantadoramente interpretada por Katie Johnson, que nunca fez tão bem a típica velhinha inglesa, personagem que repetiu em outros filmes.
Ela mora numa decadente casa vitoriana, perto da estação ferroviária de St. Pancras (as filmagens foram em King's Cross e nos estúdios de Londres). E vive freqüentando a delegacia local, onde já é bem conhecida, para falar sobre crimes que jura ter testemunhado. Mrs. Wilberforce admitiu um inquilino, o estranho professor Marcus, de dentadura proeminente e cara simpática. Este talvez seja o disfarce mais engraçado de Alec Guinness, que o ator Peter Ustinov costumava chamar de "o máximo poeta do anonimato". Marcus tem quatro bizarros companheiros, que o visitam regularmente, com a finalidade de - segundo explicam a ela - formar um conjunto que toca música de câmera. Na verdade, eles planejam um grande assalto a um trem, que traz um carregamento de dinheiro, e pretendem usar a casa como base de operações.
O grupo é bem heterogêneo. One-Round (Green) é um lutador peso-pesado meio retardado. O Major Courtney (Parker), um ex-oficial que vive de vigarices. Harry (Sellers), ex-delinqüente juvenil, agora delinqüente adulto. E Louie (Lom), um gângster do Soho londrino. A presença desses dois últimos antecipa a participação deles na série da Pantera Cor-de-Rosa, de Blake Edwards, uma década depois. Mrs. Wilberforce acaba descobrindo a intenção dos "músicos", mas trata-os como crianças que se comportam mal na creche. Eles resolvem matá-la mas não chegam a uma conclusão sobre qual deles vai cometer o assassinato. O final do filme é original e amoral.
Um dos poucos filmes da Ealing em cores (Technicolor), a direção de arte produz um delicioso cenário, com a delicadeza da decoração vitoriana, em contraste com a violência pretendida pelo quinteto. Há, ainda um papagaio - o General Gordon - que proporciona momentos de pura farsa, quando escapa e tem que ser capturado pelo inquilino e seus amigos. O mundo da Ealing não ficou datado. Isso fica bem comprovado tanto nos aspectos técnicos - direção de arte, iluminação - quanto na excelência dos roteiros e diálogos (no caso, o fino humor negro: "Não, não, não. Não na frente do papagaio", diz o major, quando designado para matar Mrs. Wilberforce).
A velhinha é a Inglaterra do cotidiano, sem sofisticações, quando suspira: "Já passou muiito da minha hora de dormir, e tive um dia exaustivo", ou quando se lembra do falecido marido. Marcus é um grande personagem inglês, meio monstro, meio acadêmico. Os outros são produtos híbridos do cinema britânico da década de 1950 e criminosos típicos do cinema americano. A comicidade está, principalmente, no contraste entre a brutalidade dos homens e a fragilidade de Mrs. Wilberforce. A cena do chá entre os assaltantes e os convidados dela é um dos pontos altos do filme. Foi o último de Mackendrick para a Ealing. Depois, ele partiu para os Estados Unidos. Adrian Hennigan, da BBC1, conclui assim um artigo sobre o filme: "Não é de se estranhar que Hollywood passou quase uma década tentando copiar ou refilmar O Quinteto da Morte. Graças a Deus, nunca conseguiram".
14 de setembro, sábado (repete dia 15 às 8h):
A EMBRIAGUEZ DO SUCESSO (Sweet Smell of Success),1957, com Burt Lancaster, Tony Curtis, Martin Milner, Susan Harrison, Sam Levene. Roteiro: Clifford Odets, Ernest Lehman e Mackendrick (não creditado), baseado na novela de Lehman. Produção: James Hill, para a Hecht-Hill-Lancaster. Fotografia: James Wong Howe. Música: Elmer Bernstein. Montagem: Alan Crosland Jr. Direção de arte: Edward Carrere. PB. 96 minutos. 12 anos.
O filme cobre um período de aproximadamente 36 horas, com duas longas seqüências noturnas, e abre com vistas de ruas e arranha-céus de Manhattan, também à noite, sob os créditos, com marquises de teatro e anúncios de produtos iluminados a néon. Soa uma campainha quando a câmera penetra no edifício de um grande jornal. Um caminhão passa, com um grande cartaz na lateral: "Venha para The Globe, Leia J.J.Hunsecker, os Olhos da Broadway". No topo do cartaz, um logotipo retangular com os olhos atrás dos óculos do famoso colunista.
Este primeiro filme de Alexander Mackendrick nos Estados Unidos expõe os pervertidos e corrompidos bastidores da glamourosa vida noturna da cidade de Nova York. Revela sua brutalidade, prevaricação, ganância, traição, cinismo, e corrupção. O vigoroso e estilizado roteiro de Lehman (Sabrina, O Rei e Eu, Intriga Internacional, Amor, Sublime Amor, A Noviça Rebelde) e do aclamado dramaturgo Odets (Conflito de Duas Almas, Acordes do Coração, A Grande Chantagem) é baseado na novela do primeiro, intitulada Tell Me About It Tomorrow, publicada na revista Cosmopolitan, em 1950. Como se não bastasse, apresenta duas das melhores interpretações dramáticas masculinas da época, sendo que a de Tony Curtis talvez seja a melhor de sua carreira.
J.J.Hunsecker (Lancaster) é o colunista de jornal mais poderoso de Nova York. Ele faz e desfaz carreiras com algumas linhas impressas. O personagem é baseado no temido Walter Winchell, durante décadas o mais famoso e insultado colunista de fofocas da América. Sidney Falco (Curtis) é um detestável assessor de imprensa que tenta promover um cliente através da coluna de Hunsecker. Este o mantém afastado, até perceber que ele pode ajudá-lo em seu propósito de arruinar, de qualquer forma, o músico de jazz Steve Dallas (Milner), que "ousa" estar apaixonado por sua irmã (Harrison) e querer casar com ela. Para conseguir isso, os dois fazem as maiores baixezas, dispostos até a cometer sérios crimes.
Enquanto Falco sente ocasionais pontadas de remorso, Hunsecker ficou tão acostumado com a bajulação dos que o cercam que acabou acreditando em sua própria onipotência.
Apesar de Curtis ficar muito mais tempo visível, é Lancaster que encabeça o elenco, talvez por ter sido co-produtor do filme. O que fica exposto como uma ferida aberta é o mundo dos chamados tablóides, com seus vícios, fraudes e chantagens. Filmando em locação e geralmente à noite, Mackendrick e Wong Howe captam o bas-fond de Nova York, num áspero preto-e-branco que destaca as sombras da cidade, enquanto o inteligente diálogo, utilizando a gíria local de forma corrosiva, é típico de Odets. A trilha jazzística de Elmer Bernstein (e o Quinteto de Chico Hamilton) acentua o turbilhão do submundo das casas noturnas, da área dos teatros, das calçadas superlotadas e dos becos sombrios.
Quase 20 anos depois, muita influência desse clima se encontra em pelo menos dois filmes de Martin Scorsese em que Nova York é tratada como um personagem: Caminhos Perigosos e Taxi Driver - Motorista de Táxi. E, mais explicitamente, em dois de Barry Levinson: um dos personagens de Quando os Jovens se Tornam Adultos cita literalmente alguns dos seus diálogos, e uma seqüência aparece na televisão do quarto de hotel onde Dustin Hoffman está hospedado, em Rain Man. Menosprezado pela crítica e pelo público, na época do lançamento, as qualidades do filme foram sendo reconhecidas aos poucos, sendo colocado, na lista de 1995 dos 100 Maiores de Todos os Tempos, da Time Out, em sexagésimo lugar, ao lado de Blade Runner, O Caçador de Andróides (Ridley Scott), Veludo Azul (David Lynch), Canção da Estrada (Satyajit Ray), O Samurai (Jean-Pierre Melville) e Sans Soleil (Chris Marker).
15 de setembro, domingo (repete dia 16 às 8h05min):
VENDAVAL EM JAMAICA (A High Wind in Jamaica),1965, com Anthony Quinn, James Coburn, Dennis Price, Lila Kedrova, Nigel Davenport, Isabel Dean, Gert Fröbe, Deborah Baxter. Roteiro: Stanley Mann, Ronald Harwood e Denis Cannan, baseado no romance de Richard Hughes. Produção: John Croydon, para a 20th Century-Fox. Fotografia: Douglas Slocombe. Música: Larry Adler. Montagem: Derek York. Direção de arte: John Hoesli. Cores. 95 minutos. Livre.
A adaptação, apesar de não ser completamente fiel ao romance, é bastante inventiva. Joga com o mesmo tipo de situação de O Quinteto da Morte, em que a ingênua meiguice enfrenta, com vantagem, a maldosa esperteza das "forças do mal", aqui representada pelo duelo entre crianças e piratas, tomando o lugar do confronto entre a frágil e obsoleta velhinha e os ardilosos assaltantes.
Com ritmo mais lento do que o frenético habitual em filmes-de-piratas, mas, em compensação, bem mais realista, este é o penúltimo filme oficialmente dirigido por Alexander Mackendrick e foi filmado nos estúdios da Pinewood, na Inglaterra, apesar da produção americana da 20th Century-Fox. Foi recebido com alguma estranheza, já que o público não estava acostumado com essa abordagem emocional e psicológica, numa história desse gênero de aventura.
Pais de crianças, na Jamaica, preocupados com o crescimento dos filhos longe da chamada civilização, resolvem mandá-los para a Inglaterra, onde poderiam receber uma educação mais tradicional. Na viagem, o navio é abordado por piratas e, na confusão, as crianças acabam se transferindo para a embarcação deles. Elas encaram tudo como uma aventura divertida, e a pequena Emily (Baxter) cria, até, laços de amizade com o Capitão Chavez (Quinn).
Supersticiosos, os piratas anseiam por largar os garotos no primeiro porto disponível. Mas uma tragédia impede que isso aconteça, e o relacionamento de Emily e Chavez sofre uma reviravolta.
Algumas cenas são inesquecíveis, principalmente as travessuras dos "prisioneiros" - a cerimônia de um enterro no mar ou o deslocamento da figura de proa, colocando-a virada para dentro do navio, o que apavora a tripulação.
O evidente prazer de Mackendrick na realização do filme, mesclando o primitivismo característico do gênero com seu estilo elegante, o irônico equilíbrio de elementos de comédia e tragédia, entre as fantasias e sonhos infantis e a angústia dos adultos, as excelentes interpretações de Quinn e Coburn, tudo resulta na construção de um agradável entretenimento.
OUTRAS REALIZAÇÕES DE ALEXANDER MACKENDRICK
Roteiros:
Sarabanda (Saraband for Dead Lovers),1948, com John Dighton e E.V.H.Emmett, direção de Basil Dearden.
Dance Hall,1950, direção de Charles Crichton.
A Lâmpada Azul (The Blue Lamp),1950, apenas diálogos adicionais, com roteiro de T.E.B.Clarke e direção de Basil Dearden.
Direção:
Capítulo de Os Defensores (The Defenders),1961, série de televisão.
Sozinho contra a África (Sammy Going South / Boy Ten Feet Tall),1963.
Aventura. Com Fergus McClelland, Edward G. Robinson.
Coitadinho do Papai, Mamãe Pendurou Você no Armário e Eu Estou Muito Triste (Oh,Dad, Poor Dad, Mama's Hung You in the Closet and I'm Feeling So Sad),1967. Não creditado, apesar de ter co-dirigido com Richard Quine.
Comédia. Com Rosalind Russell, Robert Morse, Barbara Harris, Hugh Griffith, Jonathan Winters.
Não Faça Ondas (Don't Make Waves),1967.
Comédia. Último filme de Mackendrick. Com Tony Curtis, Claudia Cardinale, Robert Webber, Joanna Barnes, Sharon Tate.
FILMOGRAFIA
- Alegrias a Granel (Whisky Galore) ,1949
- O Homem do Terno Branco (The Man in the White Suit) ,1951
- O Martírio do Silêncio (Mandy) ,1952
- Um Ianque na Escócia (The Magie) ,1954
- Quinteto da Morte (The Ladykillers) ,1955
- A Embriaguez do Sucesso (Sweet Smell of Success) ,1957
- Sozinho Contra a África (Sammy Going South / Boy Ten Feet Tall) ,1963
- Vendaval em Jamaica (A High Wind in Jamaica) ,1965
- Não Faça Ondas (Don't Make Waves) ,1967
- Coitadinho do Papai, Mamãe Pendurou Você no Armário e Eu Estou Muito Triste (Oh,Dad, Poor Dad, Mama's Hung You in the Closet and I'm Feeling So Sad) ,1967. Não creditado. Co-direção com Richard Quine.
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