Promoção TUDO SOBRE O OSCAR

POSE E SIMPATIA

Por DANIEL SCHENKER WAJNBERG
19/12/2003

Até o cachorro se chama Flaubert neste novo trabalho do diretor James Ivory, que diverte o espectador com as tradicionais e venenosas farpas de salão entre franceses e americanos, ricos e outros nem tanto. No fundo, À Francesa aborda os conflitos entre quem faz tudo para manter a pose e aqueles que não se esforçam muito para sustentá-la. Os filiados ao primeiro time são capazes de decodificar relacionamentos clandestinos com um olhar certeiro sobre uma bolsa Hermès fora de contexto. “Tenho horror de quem perde o controle”, afirma a esnobe Suzanne De Persand, expert no manual aristocrático, diante da tentativa de suicídio da nora, abandonada grávida pelo marido.

A nora é Roxeanne, pertencente ao time oposto, uma poetisa que passa a ser consolada pela irmã, a descolada Isabel, que, por sua vez, administra com habilidade um namoro descompromissado e um affair com um amante que não hesita em cobri-la de presentes caros. Não há muita pressa para resolver cada uma das situações apresentadas e a platéia vê o tempo passar em meio a rápidas tomadas panorâmicas de Paris, também flagrada em pontos turísticos selecionados, e diante de costumes típicos, como o desfile de pratos da sempre satirizada nouvelle cuisine.

Consistência, de fato, não é o forte aqui. No entanto, apesar de Diane Johnson – autora de Le Divorce , livro que seduziu o diretor James Ivory – não alcançar a dimensão de um Henry James, sua obra permite que algumas questões sejam tocadas, mesmo que de leve, como a identificação do valor de uma obra de arte a partir da constatação de sua singularidade, temática desenvolvida em Quem Sabe? , de Jacques Rivette, o conflito entre comportamento social e esfera privada e a exposição cada vez mais frequente da vida íntima, uma espécie de desnudamento alardeado pelos próprios franceses, a julgar pelas confissões de Catherine Millet e por filmes como Romance , de Catherine Breillat.

É interessante notar como a opção pelo contexto contemporâneo não chega a fazer de À Francesa um produto distante da marca Ivory-Merchant-Jhabvala, na medida em que foi mantida uma constância temática. Há, isto sim, uma perda de refinamento em relação a trabalhos do porte de Retorno a Howards End e Maurice , algo que nem o charme de um elenco que conta com as presenças de Leslie Caron, Glenn Close e Stockard Channing consegue suprir. Em meio a um time equilibrado, Matthew Modine ficou com a ingrata tarefa de interpretar uma personagem que destoa do tom geral proposto por James Ivory, que, a despeito de ocasionalmente abordar experiências pesadas com surpreendente leveza, investe um tempo excessivo num arremedo de thriller pelas escadarias da Torre Eiffel.

# À FRANCESA (LE DIVORCE)
EUA/França, 2003
Direção: JAMES IVORY
Produção: ISMAIL MERCHANT & MICHAEL SCHIFFER
Roteiro: JAMES IVORY & RUTH PRAWER JHABVALA
Fotografia: PIERRE LOHMME
Trilha Sonora: RICHARD ROBBINS
Elenco: KATE HUDSON, NAOMI WATTS, LESLIE CARON, STOCKARD CHANNING, GLENN CLOSE, MATTHEW MODINE
Duração: 117 minutos


 


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