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ENTREVISTA/ DENIS VILLENEUVE

NÃO HÁ LIMITES PARA A CRIATIVIDADE

Por MYRNA SILVEIRA BRANDÃO*

21/06/2002

Vocês certamente já tiveram oportunidade de assistir a filmes narrados por pessoas, por gatos, por personagem de quadrinhos ou até mesmo por uma figura cartunizada em computador. Mas narrado por um peixe (isso mesmo, um peixe) é um fato realmente inusitado, principalmente levando-se em consideração que o filme não é um desenho animado nem tampouco uma história sobre animais humanizados através de técnica digital. Redemoinho (Maelström), de Denis Villeneuve, é um drama com atores reais e uma narrativa até bem próxima da tradicional. O filme - que agora chega às telas brasileiras - teve seu lançamento nos Estados Unidos, no Festival de Sundance/2001, integrando a mostra Cinema Mundial.

Redemoinho começa com um peixe (Pierre Lebeau faz a voz) contando a trama em flashback : é a história de uma jovem empresária, Bibiane (vivida por Marie-Joseé Croze), que mata um pescador norueguêsapós atropelá-lo num acidente em Montreal.. Ela foge sem prestar socorro à vítima e a angústia, que posteriormente se apossa dela, vai ser agravada quando conhece um mergulhador que é ninguém menos do que o filho do pescador morto. Claro que eles vão se apaixonar e, juntos, tentar superar o incidente. A trama prossegue, o filme tem alguns momentos dramáticos mas também tem alguma coisa de humor e uma trilha sonora ótima com músicas de Richard Strauss e canções de Charles Aznavour e Tom Waits perfeitamente adequadas ao clima e desenvolvimento da história.

Produção do canadense Roger Frappier, responsável por, entre outros, O Declínio do Império Americano e Jesus de Montreal, Redemoinho tem feito sucesso por todo o mundo. Embora trate de problemas psicológicos e complexos, é narrado com uma boa dosagem de surrealismo, principalmente nas cenas expressas pelas intervenções do peixe. Na sessão de lançamento do filme em Sundance, tivemos oportunidade de participar de uma entrevista bem humorada com o diretor Villeneuve, uma pessoa criativa e inovadora (como seu filme) e com uma postura de total descontração.

Respondendo à pergunta sobre o momento em que a idéia do peixe entrou na história, ele provocou risos na platéia: "Isso demorou um pouco; o conceito inicial do filme não previa o peixe; ele só chegou dois minutos depois", disse, num tom aparentemente sério. Villeneuve afirmou que, ao contrário do que imaginava, não teve problemas para vender um filme com uma idéia tão diferente e ousada: " Quando estava indo para entregar o roteiro ao produtor, eu tinha uma razoável certeza que ele diria 'tá bom, você já se divertiu, agora faça alguma coisa séria'; mas ele ficou entusiasmado de imediato e o filme foi rapidamente concretizado", contou.

A história bizarra e os visuais pouco ortodoxos da obra deixaram os atores e os técnicos do filme, a princípio, meio desconfiados de que a empreitada realmente daria certo. O diretor contou que no final das filmagens um deles acabou revelando que só tinham embarcado no que eles chamaram de "aventura" porque tinham adorado Cosmos, o primeiro filme de Villeneuve. Dizendo-se aliviado com a ótima receptividade que o filme estava tendo, Villeneuve falou ainda sobre a importância de idéias aparentemente fora de esquadro não serem rejeitadas de imediato e terem a chance de ser testadas: "Meu filme partia de uma premissa meio doida e difícil de realizar; essa idéia poderia ter permanecido apenas na minha imaginação se eu não tivesse tido sinal verde e o apoio para não me importar com os riscos e partir para o filme", analisou. "Não havia meio termo, ou dava certo ou seria apenas ridículo e é claro que eu tinha um pouco de medo. O 'vá em frente' foi fundamental".

* MYRNA SILVEIRA BRANDÃO é vice-presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) e presidente do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB)

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