Promoção TUDO SOBRE O OSCAR

WOODY ALLEN, UMA BIOFILMOGRAFIA

Por FERNANDO ALBAGLI

(extraído de TUDO SOBRE O OSCAR, de Fernando Albagli)

Nascido em 1 de dezembro de 1935, no bairro do Bronx, em Nova York, seu nome verdadeiro é Allan Stewart Konigsberg. Escolheu o pseudônimo que ficou famoso na primavera de 1952, quando morava no Brooklyn e resolveu escrever textos cômicos profissionalmente. Tímido, não queria que colegas de turma vissem seu nome em jornais: mandara piadas e frases de humor para vários colunistas.

Costuma-se dizer que os filmes de Allen são mais aceitos na Europa do que nos Estados Unidos. Provavelmente, isso se deve ao fato de que, assim como muitas outras crianças de famílias de imigrantes, ele incorporou muito mais elementos europeus do que americanos à sua sensibilidade, apesar de ser o mais nova-iorquino dos realizadores.

Seus pais nasceram e se criaram no Lower East Side de Manhattan, mas a família de Nettie Cherry (sua mãe) veio da Áustria, no princípio do século, e a de Martin Konigsberg (seu pai), da Rússia, na mesma época. Ambas judias, que conservaram hábitos e tradições. Depois de escrever muito para outros comediantes, Allen estreou, aos 27 anos, como stand-up (comediante que se apresenta de pé, sozinho, num palco, geralmente de casa noturna), numa boate do bairro boêmio de Greenwich Village. Nessa época, já tinha escrito para programas de televisão.

Sua chegada ao Cinema foi escrevendo e atuando em Que é Que Há, Gatinha? (What's New, Pussycat?),1965, onde também aparece Louise Lasser, que trabalhou em seus primeiros filmes e foi sua mulher de 1966 a 1970.

Em 1966, criou uma obra-prima do absurdo, dublando a trilha sonora de um filme barato japonês sobre espionagem, intitulando-o What's Up, Tiger Lily?, no Brasil, hoje, peça de colecionador. Fazia a narração e uma das vozes.

No ano seguinte, protagonizou Woody Allen Looks at 1967, no programa The Kraft Music Hall, que apresentava shows cômicos, apesar de ser predominantemente um musical. Mas sua estréia para valer, na carreira cinematográfica, foi em Um Assaltante bem Trapalhão (Take the Money and Run),1969, que escreveu, dirigiu e estrelou.

Ao mesmo tempo, trabalhava no palco, ao lado de Diane Keaton, em sua peça Play It Again, Sam, que, depois, se transformaria no filme Sonhos de um Sedutor, em 1972, dirigido por Herbert Ross.

Sua persona cinematográfica é a do homenzinho urbano, intelectual de classe média, consciente de seus problemas existenciais, aliados aos de um típico judeu americano, muitas vezes hipocondríaco, preocupado com a morte. Seus filmes têm sempre fortes traços autobiográficos e, alguns deles, homenagens temáticas, ou de estilo, a Ingmar Bergman, um de seus diretores preferidos.

Nos anos 1970, escreveu, dirigiu e atuou em várias comédias de sucesso, geralmente com textos melhores que a direção: Bananas (Bananas),1971, Tudo que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar (Everything You've Always Wanted to Know About Sex But Were Afraid to Ask),1972, O Dorminhoco (Sleeper),1973, A Última Noite de Boris Grushenko (Love and Death),1975. Em fevereiro de 1972, fez, na televisão, The Politics - and Comedy - of Woody Allen, seguido de uma entrevista. Em 1976, foi apenas ator, em Testa-de-Ferro por Acaso (The Front), o que já tinha acontecido também em Cassino Royale (Casino Royale),1967. Finalmente, em 1977, seu filme mais importante até então - Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall) - ganhou os Oscars de Melhor Filme, Diretor, Atriz e Roteiro Original. O compromisso que tem, às segundas-feiras, no Michael's Pub (depois, Café Carlyle) de Nova York, como clarinetista de um conjunto de jazz tradicional, foi a sua desculpa para não receber pessoalmente os prêmios. O filme foi marcante em sua carreira. Era uma nova forma de fazer humor, com idéias maduras e um grande aperfeiçoamento de estilo, na linguagem cinematográfica. No ano seguinte, para surpresa de muitos, seu primeiro drama: Interiores (Interiors),1978, que lhe valeu uma indicação de Melhor Diretor e no qual não atua como intérprete. Mas, em Manhattan (Manhattan),1979, Allen volta ao estilo de Annie Hall. Ele é novamente o intelectual judeu, confuso com suas neuroses e envolvido em relacionamentos com não-judias. E Diane Keaton é outra vez a protagonista. Memórias (Stardust Memories),1980, foi seu último filme para a United. Começou, então, uma associação, com a Orion. E com colaboradores que o acompanharam durante anos: o roteirista Marshall Brickman e os produtores Jack Rollins e Charles Joffe. O primeiro filme que fez com Mia Farrow foi sua homenagem mais explícita a Bergman: Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão (A Midsummer Night's Sex Comedy). Em 1983, conseguiu ótimos resultados, juntando cenas de antigos documentários com seqüências novas de ficção, em Zelig (Zelig), propiciando ao diretor de fotografia Gordon Willis a oportunidade de um trabalho magistral. Depois do terno e divertido Broadway Danny Rose (Broadway Danny Rose),1984, Allen fez outra incursão na fantasia e na técnica, novamente com a ajuda de Willis. Foi A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo),1985, pelo qual ganhou o prêmio da crítica no Festival de Cannes. Com Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters),1986, ganhou mais um Oscar como roteirista. Vieram, então, três filmes bem diferentes que ele apenas dirige e roteiriza: o autobiográfico A Era do Rádio (Radio Days),1987, que narra (não creditado), e os dramas Setembro (September),1987, e A Outra (Another Woman),1988. É seu o terceiro episódio - "Édipo Arrasado (Oedipus Wreck)" - de Contos de Nova York (New York Stories),1989, completado por Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, outros nova-iorquinos convictos. Crimes e Pecados (Crimes and Misdemeanors),1989, diversifica sua dramaturgia e fecha a década brilhantemente, proporcionando-lhe indicações para Melhor Diretor e Roteirista.

Vieram, depois, Simplesmente Alice (Alice),1990, Cenas em um Shopping (Scenes From a Mall),1991, apenas como ator, dirigido por Paul Mazursky, Neblina e Sombras (Shadows and Fog),1992, Maridos e Esposas (Husbands and Wives),1992, Um Misterioso Assassinato em Manhattan (Manhattan Murder Mystery),1993.

Sobre as filmagens deste último, depõe Stig Björkman, jornalista e crítico sueco, que escreveu uma biografia de Allen, em forma de entrevistas: "O que mais me impressionou, acima de tudo, foi a facilidade e a camaradagem que marcaram o trabalho. Rodar um filme é uma coisa complicada, mas ali não ocorreu o habitual stress..." E explica: "Woody vem se cercando, há 15 ou 20 anos, pela mesma equipe. Todos se conhecem e se comunicam sem precisar de palavras. Um gesto, um olhar...". E ainda conclui: "Woody Allen desfruta de uma posição privilegiada. Tem um contrato com seus produtores que lhe garante total liberdade de escrever e dirigir pelo menos um filme por ano. Controla a escolha da história, o roteiro, atores e membros da equipe, bem como a edição final. A única condição é que ele se mantenha dentro dos limites financeiros fixados para o projeto".

Allen teve um filho com Mia Farrow - Satchell - e vários que adotaram. Viviam em casas separadas, mas tinham a fama de serem muito unidos. Sempre preservaram sua vida íntima, ficando longe das fofocas de jornais e revistas especializadas. Até que Allen foi acusado por Mia de molestar sexualmente um dos filhos adotivos - Dylan - e de ter um caso com outra - Soon-Yi - que ela adotara quando casada com o maestro André Prévin. A primeira acusação foi considerada infundada pela justiça, mas a segunda se confirmou, quando Woody e Soon-Yi passaram a viver juntos. Apesar da moça não ter parentesco de sangue com Allen e já estar cursando a faculdade, a mídia fez com que o caso tivesse uma aparência de incesto, o que aumentou o escândalo em torno do assunto. Tudo isso poderia ter afetado a carreira de outro artista, mas não foi o que aconteceu com Woody Allen. Logo em seguida, Tiros na Broadway (Bullets Over Broadway),1994, provou isso. Foi indicado para sete Oscars. Nesse mesmo ano, adaptou, dirigiu e estrelou, na televisão, sua peça Don't Drink the Water, que encenara na Broadway, em 1966, e tivera uma medíocre versão cinematográfica, dirigida por Howard Morris, em 1969, intitulada no Brasil Que Seqüestro Aéreo!. Poderosa Afrodite (Mighty Aphrodite),1995, proporcionou, a Mira Sorvino, o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Em seguida, um divertido e delicioso musical à antiga - Todos Dizem Eu te Amo (Everyone Says I Love You),1996 - onde os atores (com exceção de Drew Barrymore) não são dublados quando cantam.

Em 1997, Allen está em grande forma, em Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry). Razões comerciais atrasaram a chegada do filme ao Brasil, onde foi exibido apenas em junho de 1999. Também no mesmo ano, a documentarista Barbara Kopple registrou a turnê de Woody Allen e sua banda de jazz pela Europa, em Woody Allen in Concert (Wild Man Blues).

Ainda em 1997, jornais de Nova York descobriram um telefilme de Allen ainda inédito - Men of Crisis: The Harvey Wallinger Story - dirigido e interpretado por ele, para a televisão, em 1971. Em tom de documentário, e com apenas 25 minutos, o filme faz uma referência direta ao Secretário de Estado Henry Kissinger, que é o personagem de Allen. Planejado para ser exibido durante a campanha eleitoral que terminou com a reeleição de Nixon, nunca foi ao ar porque os produtores temeram represálias políticas. Ele apresentava o Secretário como um homem vaidoso, obcecado pelo poder e cúmplice dos erros do Presidente. E ainda diz, numa cena, que a mulher do Presidente tentou ir para a cama com ele. Depois disso, Allen fez raros trabalhos para a televisão, incluindo alguns comerciais, e nunca mais tentou passar mensagens políticas.

Em 1998, Woody dirigiu Celebridades (Celebrity), onde o principal papel é vivido por Kenneth Branagh, numa boa imitação (mas que chegou a irritar muita gente) da maneira de interpretar de Allen. Quem brilha mais no filme, no entanto, é a grande atriz Judy Davis. Em 1999, utilizando técnicos bem diferentes dos de sua equipe habitual e um elenco encabeçado por Sean Penn, Woody Allen fez Poucas e Boas (Sweet and Lowdown), a fictícia biografia de um lendário guitarrista de jazz, onde também interpreta um pequeno papel, dando uma entrevista sobre o personagem.

No dia 19 de maio de 2001, Allen fez uma de suas raras aparições em público, numa palestra na New York Public Library, para uma audiência de 600 pessoas, que incluía o comediante Steve Martin, o romancista Salman Rushdie, além de turistas, artistas e fãs. Falou principalmente de quem ele realmente é, da depreciação que faz de si mesmo em seus filmes, e, mais importante ainda, de quem ele não é. "Posso pensar em muitas pessoas que eu gostaria de ter sido. Ficaria muito feliz em ser Marlon Brando ou Louis Armstrong ou Bud Powell ou Sugar Ray Robinson. Sei de muitas vidas menos monótonas e mais intensas que a minha".

A jornalista Emily Eakin comenta, no New York Times de dois dias depois: "Isso arrancou uma risada da platéia. Afinal, todos conhecem seu ritmo de produção - 37 filmes em 35 anos, incluindo Trapaceiros (Small Time Crooks),2000, O Escorpião de Jade (The Curse of the Jade Scorpion),2001, Hollywood Ending,2002, e o prometido Anything Else para 2003. Há menos de duas semanas, ele processou a ex-amiga e sócia Jean Doumanian, por apropriação indébita em lucros de oito filmes. Monotonia? Falta de intensidade?" Quem lhe fazia perguntas era David Remnick, editor da New Yorker. "Não sou um recluso nem um intelectual. Não passo meu tempo lendo filosofia dinamarquesa no meu quarto. Fico mais em casa tomando uma cerveja e vendo os playoffs de basquete." Disse que só começou a ler coisa séria por volta dos 17, 18 anos, quando percebeu que dependia um bocado disso para ter sucesso romântico. "Eu tinha que ler para conviver com as mulheres que me interessavam. Se eu não faço esforço quando leio, sinto que estou perdendo meu tempo (...) Não tenho dom para música. Escrevi um romance que nunca foi publicado." Atribuiu seu sucesso, escrevendo gags para colunistas de jornal e para a série de TV Your Show of Shows, quando ainda estava no ginásio, "à pura sorte". Quanto aos filmes, disse que os fez para combater a depressão e se recusa a considerá-los "grande arte". E acrescentou: "Dedos ocupados, dedos felizes. Não me importo se meus filmes forem para o lixo depois que eu morrer". No final, a platéia o aplaudiu, boa parte de pé. E muitos saíram achando que aquele Woody Allen que tinham acabado de ver, se autodepreciando, era apenas mais um personagem criado por ele.

Na entrega dos Oscars, em 2002, surpreendeu aparecendo pela primeira vez na cerimônia. Era em homenagem à sua querida Nova York, apresentando New York on Film, uma pequena coletânea dirigida por Nora Ephron.

Ver filmes de Woody Allen é como bater papo com velhos amigos. A gente já sabe o tipo de conversa que vai ter, mas é sempre prazeroso.


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