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Críticos.com.br - A edição do filme é tão rica mas
eu estava lendo as críticas estrangeiras e não vi ninguém
mencionar a questão do tecido sonoro do filme.
WALTER SALLES - Eu se pudesse ainda secava bem mais,
se tivesse tido tempo.
Críticos.com.br - Tem aquela coisa das rezas, dos sons
dos aboios que vão virando trilha sonora, vão perdendo a literalidade.
Críticos.com.br - A edição do som é sensacional, é
toda bonita. Não é naturalista, é toda poética. Como foi a
incorporação desses sons?
WALTER SALLES - Tem vários elementos diferentes que
foram conjugados no final. Primeiro tem o trabalho extraordinário
de pesquisa do José Dumont, que "se jogou" ali no filme, num
processo de imersão absoluto, e começou a captar algumas expressões
de pessoas que estavam à nossa volta. É preciso entender que
nós filmamos no meio do nada, numa cidadezinha chamada Bom
Sossego, muito distante de qualquer centro mais desenvolvido
do interior da Bahia. Então isso fez com que um ouvido sensível
como o do Zé Dumont pudesse perceber e eleger algumas expressões
locais que ele foi trazendo pro filme. Se você quiser comparar,
é um pouco com a mesma intenção que Guimarães Rosa fez na
literatura, de incorporar o não-dito, de ouvir aquilo que
não tinha sido falado ainda. Aí ele criou aquele mantra extraordinário
que não estava no roteiro, junto com todas as outras expressões.
Contribuição total do Zé Dumont, que já virou um co-autor
desse filme. E esse então é um dos elementos. Depois, do ponto
de vista das camadas sonoras, foram eleitos sons adicionais
muito específicos de engrenagens, de tudo que pudesse marcar
o tempo. Quer dizer, como o lento passar do tempo era um elemento
constitutivo da história, tudo que pudesse demarcar o tempo
também teve um tratamento sonoro específico. Um exemplo claro:
o balanço funciona como um metrônomo e a idéia é que ele faça
ruído só nas pontas. TUM... TUM... TUM... TUM.... Ao invés
de fazer ruído, ranger o tempo todo, ele só marca o tempo
da mesma forma que um metrônomo faria. E visto de longe ele
é efetivamente um metrônomo. Quando a câmera tá no alto da
bolandeira a idéia também é fazer com que as engrenagens sejam
na verdade ouvidas como se fossem as engrenagens de um imenso
relógio. E também dá uma idéia de CLAC... CLAC... CLAC...
CLAC..., de passagem de tempo. Quer dizer, tudo que pudesse
demarcar a idéia de que o tempo estava se esgotando foi central
na montagem do som. Depois o vento, todos os elementos naturais
foram adicionados. Do ponto de vista da música, houve um fator
muito importantes, que foi a recuperação, num trabalho feito
pelo Hermano Viana e também pelo Beto Vilares, no Brasil inteiro,
captando sons originais de rezas, de canções tradicionais
que estavam começando a se perder. Toda uma arqueologia sonora
que foi feita durante dois anos e que é de uma riqueza extraordinária.
Aquele canto que está lá atrás é o canto dos mortos gravado
numa igreja em Minas Gerais, aquilo alimentou a música. Aquilo
vem ali por trás e isso acabou também se somando a todos os
elementos que eu já mencionei aqui.
Críticos.com.br - Você filmou muita coisa que você
não aproveitou, inclusive uma cena inteira da festa dos brincantes,
onde pega fogo.
WALTER SALLES - Também o enterro...
Críticos.com.br - Tinha também uma tomada da queda
do balanço com uma crash camera, isso entraria como extra
num DVD ou não?
WALTER SALLES - Olha, por que não? Na verdade se eu
te falar daquilo que eu mais gosto do que não entrou eu te
diria que é uma improvisação do Luiz Carlos Vasconcelos no
meio do público de uma cidadezinha. No momento em que ele
desce do palco e se mistura com a platéia, isso é uma das
melhores coisas que a gente filmou.
Críticos.com.br - E por que você tirou?
WALTER SALLES - Infelizmente eu não tirei, na verdade
eu não pude botar, porque isso de uma certa forma alongava
uma parte do filme que já estava excessivamente esgarçada,
entende? Então não foi possível incluir. Mas te digo que foi
com profundo pesar que a cena não foi editada, porque ela
é belíssima e aquilo que ele fez é lindo.
Críticos.com.br - A escolha da atriz para fazer a Clara
ficou um pouco limitada porque você precisava de uma pessoa
que tivesse aquelas habilidades circenses. Você imagina esse
papel feito por uma pessoa que não fosse de circo?
WALTER SALLES - Havia duas possibilidades. Ou fazer
a opção que nós fizemos, pegar alguém de circo e prepará-la
para entender o que era atuação, o que é o cinema, que é uma
construção difícil, pedacinho por pedacinho...Ou, ao contrário,
pegar uma atriz e partir para a utilização de dublês e coisas
assim, começar na verdade a utilizar toda uma tecnologia que
não me interessava utilizar aqui. Não tinha a ver com que
o filme deveria ser, e nesse sentido eu parti logo pra primeira
opção...
Críticos.com.br - Aquela cena dela na corda é muito
marcante no filme.
WALTER SALLES - Olha, tudo o que está no filme foi
feito por ela, da mesma forma que a cena da corrida, por exemplo,
foi toda feita pelo ator, não há uma artificialidade nesse
processo. Da mesma maneira que a grande maioria das cenas
filmadas de dia ou de noite _ e eu não estou falando dos planos
gerais, mas de noite dentro da casa _ teve muito pouca utilização
de luz artificial. Trabalhei com muito pouca luz. A intenção
foi utilizar uma luz mais violenta com contraste grande entre
o claro e o escuro. A presença das massas pretas é muito evidente
durante o filme como um todo.
Críticos.com.br - Apesar das locações serem bonitas
em relação ao que se espera comunmente de uma região daquelas,
a gente não nota no filme uma preocupação sua em querer realçar
a beleza daquelas paisagens, como se falou muito no caso do
Eu, Tu, Eles, por exemplo, que o Eu, Tu, Eles glamourizava,
mostrava como era linda uma região que normalmente é desqualificada.
WALTER SALLES - Alguém vai falar isso mais cedo ou
mais tarde desse filme, e acho que isso vem de um certo simplismo
também, de que quando você fala de uma classe social específica,
você tem direito de usar a luz assim, a luz assado, e quando
você vai enquadrar pessoas de uma outra classe social você
obrigatoriamente tem que passar para um preto-e-branco granulado.
Nesse sentido, foi muito interessante descobrir agora, na
viagem que eu fiz recentemente pela América Latina, o trabalho
de um fotógrafo que morava em Cuzco no início do século passado
chamado Martin Chambi. Ele era um filho de índios de herança
inca que aprendeu a técnica fotográfica e começou, num trabalho
extraordinário, a dar o mesmo valor tanto para a burguesia
local que ele retratava quanto para as pessoas da mesma classe
social que ele. Ou seja, conferindo a mesma dignidade para
aqueles que ele focalizava. Eu achei isso revelador, interessante,
vindo de onde ele vinha. De qualquer forma, isso é um tema
infinito, e também não me parece que o filme do Andrucha tenha
essa função. Acho que é um filme sobre a generosidade, é um
filme sobre a diversidade amorosa, é um filme tão generoso
na largada que ele pode incluir isso porque também tem uma
qualidade meio fabular, é uma pequena fábula. Neste sentido,
não é um filme inteiramente realista e nem pretende ser.
Críticos.com.br - Mas eu acho que isso é um problema
da mídia em geral, que chega sempre a essas conclusões apressadas
e simplistas. Às vezes, pelo fato de o Andrucha ter tido uma
carreira publicitária ele vai ser sempre visto como cineasta
"publicitário", a pessoa quando vai ver o filme já vai procurando
um plano publicitário. E talvez, no seu caso, alguma ligação
com o documentário.
Críticos.com.br - Você tem uma habilidade especial
para dirigir crianças. Em Central você já tinha
mostrado isso e, para mim, esse menino de Abril
é fantástico ....
WALTER SALLES - Habilidade para dirigir crianças
no caso de Abril quem tem mesmo é o Luiz Carlos Vasconcelos.
Ele foi extraordinariamente importante não somente na
preparação dos atores antes da cena como também no desenvolvimento
das cenas enquanto elas estavam sendo filmadas. Eu tive
a sorte de, depois de um longo processo de casting,
ter podido colaborar com dois meninos muito talentosos,
o Vinícius de Oliveira em Central do Brasil e
agora o Ravi Ramos em Abril. O Vinícius vinha
sem nenhuma bagagem prévia e teve a coragem de acreditar
no que eu dizia para ele. Esse processo de confiança
mútua alimentada também pela atuação extraordinária
de Fernanda Montenegro acabou gerando a possibilidade
de uma atuação refinada e convincente. Já o Ravi vinha
com uma bagagem prévia, ele tinha atuado em peças infantis
e tinha atuado com a mãe dele.
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