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Críticos.com.br - No Kadaré é típico, você pega uma
história sem saída e cria uma senda para um personagem.
WALTER SALLES - E de um ponto de vista... eu não sei
muito bem como desconstruir isso de um ponto de vista psicológico...(risos)...,
mas é algo que está claramente aí, você tem razão. (risos)
Críticos.com.br - Porque no livro ele não se salva,
parece que se teu irmão tivesse adaptado, ele manteria o final
como ele é, não se salvando.
Críticos.com.br - Mas o outro irmão morre, há uma troca
aí. Ele não teve saída para um, mas o outro conseguiu...
WALTER SALLES - O que há é que eu não me afasto da
tragédia, mas tento outorgar uma saída para um dos personagens.
Críticos.com.br - Essa questão da figura da mãe, que
no próprio livro que você cita como uma fonte de informação,
diz que as mulheres incitavam a vingança e tal, e nos outros
filmes de países latinos você vê também que as mulheres fazem
esse papel, essa diferença dela no final, quando ela diz para
ele que tudo terminou, já acabou, e tal, você fez essa mudança
propositadamente do comportamento feminino, no caso?
WALTER SALLES - A pesquisa feita pelo Sérgio Machado
trouxe essa evidência que me surpreendeu, quer dizer, a mim
me parecia praticamente inaceitável que, após a perda de um
filho, uma mãe tivesse o impulso de colocar a camisa manchada
de sangue no varal e chamar, na verdade, a vingança, concordando
que o outro filho partisse para cometê-la, botando a sua vida
em risco. No entanto, todas as pesquisas, todas as fontes
que nós tínhamos mostravam que, a exemplo do que acontece
na Albânia, no sul da Itália, na Córsega, a mãe sempre foi
instigadora da vingança. Então nós assumimos esse estado de
coisas e é o que você vê no filme. Mas eu acho que existe,
como em todo personagem, instintos ambivalentes. Os personagens
devem ter a mesma ambivalência que nós temos em relação à
vida. Eu acho que não é uma coisa acabada, eu acho que chega
um momento em que alguém tem que dizer basta nisso, e me pareceu
que naquele ato final era possível que ela dissesse basta,
porque ela estava esgotada com aquilo, chega o momento da
gota d'água e isso justifica...
Críticos.com.br - Não sei porque eu a todo momento
estava lembrando de Israel e os palestinos, e isso foi uma
coisa que me chamou muito a atenção.
WALTER SALLES - Não foi só você, na pré-estréia em Londres,
no BAFTA, que é a Academia Britânica de Cinema, uma mulher
veio no final em lágrimas pra me dizer que ela tinha visto
a história da família dela. Ela morava na Faixa de Gaza e
tinha perdido irmãos. Foi um momento, aliás, muito comovente.
Eu recebi e-mails da Irlanda, por exemplo, onde o filme está
passando agora, de pessoas dizendo: "Nós também nos vimos
nisso". Os críticos irlandeses falam disso. E aí está na verdade
a universalidade do Kadaré, não do filme. Nesse sentido, o
embate entre duas famílias também pode ser entendido como
o confronto entre duas facções religiosas ou duas etnias ou
dois Estados, você tem ali uma maneira de conjugar essa equação
de formas diferentes.
Críticos.com.br - O que o filme traz de novo para isso
é dizer que existe uma possibilidade, e essa possibilidade
é um amor fraterno. Que é um tema engraçado porque tem livros
aparecendo sobre isso. Vão lançar uma coleção de contos sobre
a fraternidade, o amor que se fala no cinema e na literatura
é outro, não se fala muito, mas agora parece que é uma alternativa
possível quando você vê algo que precisa ser valorizado...
Críticos.com.br - O filme desloca o eixo da história
para a questão dos irmãos.
WALTER SALLES - Sem dúvida. Isso é próximo também da
minha experiência, eu vim de uma família onde os irmãos são
muito ligados uns aos outros, esse é um tipo de relação que
eu conheço melhor do que outras que estão ali também no filme,
daí a ter claramente deslocado o eixo narrativo nessa direção.
Críticos.com.br - Mas é a primeira vez que você tematiza
a fraternidade, não?
Críticos.com.br - Tem o encontro dos irmãos,
em Central do Brasil...
Críticos.com.br - Mas é subsidiário, não é tão "central".
(risos)
Críticos.com.br - Mas o interessante é que você descobriu
isso no processo de montagem, não é?
WALTER SALLES - No processo de montagem, mas eu acho
que na própria filmagem já vínhamos derivando para isso. Porque
um filme vai deixando de ser aquilo que tá na página e vai
começando a formar uma vida própria, entende? E nesse sentido
você começa a perceber que a intenção original começa a ganhar
texturas e cores diferentes, e você pode ou aceitar ou negar
isso. No caso, nós aceitamos esse estado de coisas.
Críticos.com.br - Você falou em montagem. Uma pergunta
que eu queria fazer é que no teu processo de trabalho, é claro
que você tem a última palavra no corte final, mas qual é a
liberdade que você dá para o montador?
WALTER SALLES - Depende do projeto. Nos documentários
ou no Terra foi um processo de co-montagem, aliás,
com a mesma pessoa, que foi o Felipe Lacerda, que é
um ótimo montador. Central é um filme em que
eu fiquei presente durante boa parte do tempo no processo
de montagem, e essa montagem foi feita por dois montadores
diferentes e em horários diferentes para a gente avançar
um pouco mais rápido. O meu trabalho foi de equilibrar
o resultado final de maneira que o ritmo interno das
cenas não fosse alterado pelo trabalho feito por pessoas
diferentes. No caso de Abril você tem que entender que
foi uma correria danada no início do processo, porque
havia um convite do festival que precisava ser atendido
e nós o montamos da maneira mais rápida possível. Depois
foi necessário decantar o filme, afinar o filme e encontrar
um novo equilíbrio não somente em relação à imagem,
mas também ao som, pois o som foi pré-mixado e tinha
elementos demais no início. Porque normalmente você
trabalha por adição, vai colocando todos os elementos
e depois é necessário o tempo da subtração, começar
a eliminar tudo que não é essencial. E no caso da ida
para Veneza havia elementos em excesso. Depois a gente
foi retirando pouco a pouco. Nessa primeira fase, a
montadora, Isabelle Rathery, foi muito presente, importante.
Ela trabalhou 20 horas por dia e depois, na segunda
fase, eu já trabalhei mais sozinho, inclusive porque
Isabelle já estava na França e eu terminei fazendo as
mudanças finais como normalmente eu faço.
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