Críticos.com.br - Walter, você sentiu a necessidade de obter do Kadaré uma liberação para ser infiel?

WALTER SALLES - Certamente. A primeira coisa que eu fiz foi tentar encontrá-lo para dizer que a simples transposição de uma geografia para a outra iria impor uma redefinição dos códigos, uma diferença não somente na forma de expressão do conflito em si, mas também das conseqüências do conflito. E ele falou: olha, eu vi Central, eu vi O Primeiro Dia e te dou sinal verde para você prosseguir. E assim foi feito.

Críticos.com.br - Eu fiquei curioso quando você falou que procurou uma estrutura binária para contar essa história, e essa estrutura de alguma maneira se reflete na estética utilizada. Eu vejo bem assim, os planos de plongé contra a terra que cravam os personagens na lei, na tradição, na letra da norma, e os planos opostos das copas das árvores, dos vôos, da coisa aérea em relação à terra.

WALTER SALLES - É exatamente isso, foi um ponto de partida, um filme entre céu e terra, um filme em que o posicionamento da câmera, aquilo que está dentro do quadro, deveria ter uma função expressiva como eu te falei no início, um pouco como o cinema mudo fazia. O que a gente mais viu no período de preparação foi cinema mudo.

Críticos.com.br - Mais especificamente o quê? Eiseinstein?

WALTER SALLES - Mais especificamente filmes como A Linha Geral, de Eiseinstein, Tempestade sobre a Ásia, de Pudovkin, e filmes recentes mas também muito poucos verbais, como Além da Linha Vermelha, do Malick, que talvez seja o filme que melhor conjuga, eu acho, a questão da violência com o lirismo, pelo menos no cinema americano mais recente. Voltando à outra pergunta, o que me levou a fazer o filme foi justamente a possibilidade de falar disso, de personagens cravados na terra, na tradição, mas que aspiravam na verdade à perda da gravidade, quer dizer, da gravidade em todos os sentidos, de escapar daquele moto-contínuo e conseguir ultrapassar aquela barreira, aquela porteira_ simbólica, sempre. Tentei fazer isso sem que os simbolismos fossem sublinhados. Outra oposição clara para mim entre dois elementos era a ordem infligida pelo pai e a desordem anunciada pelo menino. Esse também foi um fator que me levou a avançar o interesse em tocar nesse assunto. Em Central do Brasil, a recomposição da família, de uma família possível, se bem que sem a figura paterna, me pareceu, de alguma forma intuitiva, algo importante no momento de reconstrução da identidade brasileira. Em oposição àquilo que eu havia feito em Terra Estrangeira junto com a Daniela, em que de forma proposital, logo no início dos anos Collor, uma família onde inexiste uma figura paterna vive a perda da mãe, ou seja, uma nação se torna órfã naquele momento, e o menino vai para fora tentar buscar uma saída além-fronteira. No Central, pelo menos de uma forma intuitiva, eu tive a impressão de que a questão de uma reconstituição de identidade nacional era importante. Agora eu fiquei com vontade de questionar o poder da autoridade e de alguma forma o menino era a maneira mais fácil de chegar a isso.

Críticos.com.br - O menino não existe no livro...

WALTER SALLES - O menino é anunciado no livro, você sabe que tem o irmão no livro e ele não é desenvolvido. E no filme ele tem uma importância capital.

Críticos.com.br - Ele é mais que personagem, ele é narrador, inclusive um narrador que ultrapassa a capacidade de expressão do personagem, uma coisa intencional, ele fala proverbialmente, em alguns momentos.

WALTER SALLES - Ele fala mesmo, ele narra a história, mesmo sumindo dela a partir de um certo momento. Há 50 anos, o Billy Wilder foi bem mais longe, com Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses), que é inteiramente narrado pelo morto. Aliás, o filme começava na morgue e aí eles achavam que era um pouco demais e passou para a piscina. (risos) Voltando ao Abril, talvez haja um ponto de ligação com o Central e a Terra. Eu acabei de evocar os dois por oposição, mas eu acho que há um ponto de ligação. Os três filmes são narrados por personagens que guardaram alguma inocência no olhar, quer dizer, que não se corromperam e por isso podem se confrontar com uma ordem pré-estabelecida, e essa possibilidade do confronto é que traz em última instância o novo, altera o status quo do seio daquela família. Isso para mim me pareceu interessante nesse filme, nesse momento, também pela questão intuitiva.

Críticos.com.br - O uso do menino, então, foi nesse sentido. Porque é engraçado que a gente nota no cinema iraniano, principalmente, que ele usa crianças em quase todos os filmes que tratam de uma questão mais dogmática da sociedade. Eles usam a figura do menino exatamente com esse olhar inocente, para você ter um olhar de fora. Você acha que o teu filme teria alguma relação com o cinema iraniano nesse sentido?

WALTER SALLES - Não. Eu acho que a questão lá é outra porque, com a existência de uma censura interna, eles são obrigados a utilizar formas indiretas de expressão, e as crianças são muitas vezes o veículo dessa necessidade. Adicione-se aí o fato de que boa parte do financiamento dos filmes do Kiarostami, pelo menos no início, foram feitos através do Ministério da Criança.

Críticos.com.br - Mas não foi só o Kiarostami, todos os filmes iranianos têm, até pela ausência da criança, como em Leila...

WALTER SALLES - Sim, mas vários desses filmes tiveram parte do financiamento garantido pelo mesmo Ministério, ou o mesmo Instituto ligado à educação e à criança. Mas filmes recentes como o filme do Panahi sobre as três mulheres, ou O Quadro-Negro, da Samira Mahkmalbaf, passam ao largo dessa questão.

Críticos.com.br - Walter, acho que seus quatro últimos longas têm uma coisa em comum também. A Grande Arte eu não sei se insere nesse aspecto, mas os quatro seguintes são filmes sobre salvação, são filmes sobre personagens que estão no inferno e se salvam de alguma maneira ou que passam pelo inferno e o atravessam, e isso diz alguma coisa sobre você, não posso imaginar que não diga. Alguma coisa sobre talvez uma necessidade que você sinta de propor uma generosidade, de proporcionar a salvação a alguém. Não tem uma coisa meio messiânica nisso não? Você não se surpreende com impulsos messiânicos no sentido de salvar personagens...

WALTER SALLES - Olha, messiânico eu não sei, mas o que eu certamente percebo naquilo que me atrai é a escolha de personagens que conseguem se outorgar uma segunda chance ou se rebatizarem. Isso inclusive nos documentários. Se você olhar Socorro Nobre, você tem isso. Se tem uma coisa que eu tenho verdadeiro pavor é da intolerância, das questões acabadas, da incapacidade de aceitação de uma polifonia, de uma diversidade que a própria vida exibe e que muitas facções ou pessoas passam ao largo. Tanto em criatura quanto no cinema eu sempre me interessei mais ou acabei me aproximando de formas de expressão que, de uma forma ou de outra, outorgam uma saída para pelo menos um dos personagens.

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