Promoção TUDO SOBRE O OSCAR

ENTREVISTA COM WALTER SALLES

Por CARLOS ALBERTO MATTOS, FERNANDO ALBAGLI, MARCELO JANOT e PEDRO BUTCHER

Na quarta-feira, dia 23 de abril, uma semana antes do lançamento de Abril Despedaçado, Walter Salles dedicou um bom espaço em sua apertada agenda para receber a equipe de Críticos.com.br. Antes de começar a entrevista, na espaçosa sede da produtora Videofilmes, no bairro da Glória, ele fez questão de mostrar em primeira mão o curta que co-dirigiu com Daniela Thomas e levaria para o Festival de Cannes, onde foi jurado. Com duração de cerca de cinco minutos e realizado com um único plano, Uma Pequena Mensagem do Brasil ou A Saga de Caju e Castanha contra o Encouraçado Titanic mostra a dupla de repentistas nordestinos improvisando um alucinado discurso anti-Hollywoodiano em frente a um cinema de interior, com o letreiro anunciando "Titanic" caindo aos pedaços. Mais uma grande sacada de um cineasta que tem muito a dizer, como se confirmou no longo papo de mais de uma hora que você confere a seguir, na íntegra.

Críticos.com.br - Por que você situa Abril Despedaçado em 1910? Esta não poderia ser uma história atemporal, ou contemporânea?

WALTER SALLES - Eu acho que não poderia ser contemporânea. Por mais que nós estivéssemos num universo claramente fabular, toda pesquisa histórica que foi feita pelo Sérgio Machado (co-roteirista) desvendou o fato de que as lutas de família no Brasil tiveram um apogeu por volta de 1910, e coincidentemente na mesma época em que Kadaré situa o livro dele. Há um livro escrito nos anos 40 chamado Luta de Família no Brasil, que fala especificamente do confronto entre os Montes e os Feitosas no Sertão dos Inhamuns, no Ceará, uma área que é quase tão grande quanto a Bélgica, e o conflito se aguça naquela época. Como eu vim do documentário, mesmo para fazer uma coisa que tenha uma qualidade fabular, portanto não totalmente realista, eu preciso partir de uma base realista.

Críticos.com.br - Você sente necessidade disso? Você pessoalmente?

WALTER SALLES -Sim, como realizador de ficção eu acho que sou antes de mais nada um documentarista, o que tornou esse projeto muito mais difícil para mim _ esse especificamente, mais do que os projetos que eu já tinha feito antes. Porque de uma certa forma, todas as outras narrativas, como a de Terra Estrangeira, ou a de Central do Brasil, ou mesmo a de O Primeiro Dia, permitiam a integração daquilo que a gente vinha encontrando por acaso na estrada, na rua, ao dobrar de uma esquina, dentro da própria textura do filme, e essa oxigenação alterava o resultado final. Como num documentário, aquilo que cercava o filme se tornava constitutivo da própria matéria do filme. Nesse caso, isso não era possível. Era, enfim, a situação de quem precisa reinventar uma maneira de contar uma história, já que as premissas não eram as mesmas às quais eu já estava acostumado.

Críticos.com.br - Você acha que isso te permitiu viajar um pouco mais na questão mais fabular do filme? Por exemplo, a questão da água no final, uma licença poética que, de repente, a gente não encontra nos seus filmes anteriores, justamente por esse vínculo com o real. Isso foi consciente na tua cabeça, tipo "já que eu não tenho esse vínculo tão grande eu posso voar um pouco mais"?

WALTER SALLES -O que me interessou basicamente no livro do Kadaré foi o confronto, ou mesmo a colisão, entre aquilo que era de ordem trágica e aquilo que era de ordem poética. A resultante dessa colisão é que me levou a fazer esse filme. E também a oposição entre vários outros elementos, entre a imobilidade daqueles que habitavam na terra dos Breves e a mobilidade dos brincantes; o gregarismo em oposição ao nomadismo; o que estava dentro da porteira em confronto com a modernidade, ou seja, com aquilo que estava além-fronteira. Essa possibilidade de estabelecer um filme com uma estrutura binária foi o que me interessou num primeiro momento, o que era muito diferente daquilo que eu já tinha feito. De uma certa forma, eu estava querendo entrar num território que não tinha ainda investigado. É como uma necessidade em algum momento de alargar um pouco a sua compreensão da gramática.

Críticos.com.br - Mas, apesar dessas diferenças todas, o seu método não mudou tanto assim. Eu digo, você incorporou muitas coisas como as rezadeiras, por exemplo, as locações, a importância de determinadas locações que existiam...

WALTER SALLES - Parto quase sempre do pressuposto antonionesco de que existe uma relação entre a geografia física e a geografia humana, quer dizer, a aridez do lugar de uma certa forma impregna aqueles personagens e permite a possibilidade de fazer um filme essencialmente não verbal. Essa foi outra coisa que me interessou. Quando você assiste à TV hoje, você vê as telenovelas, por exemplo, você entra no terreno do tudo mostrar, do tudo ver, e muitas vezes tudo é excessivamente sublinhado, verborrágico, falado, quando não gritado. O que me interessou no Kadaré foi justamente a possibilidade de fazer um filme de não ditos, em que as coisas fossem expressas pelos olhares de quem não tinha sequer a capacidade de verbalizar os seus sentimentos, entende? Isso também criava a necessidade de formar uma estrutura narrativa em que cada elemento dentro do quadro tivesse uma função expressiva. Essa foi uma outra preocupação, de que cada elemento escolhido pudesse ajudar a contar a história, quer dizer, tivesse uma função narrativa. Daí o fato de A Bolandeira, documentário do Wladimir Carvalho, ter sido tão importante, porque através da bolandeira a gente pôde exprimir a repetição circular do tempo. E o jugo que o pai-patrão exercia não somente em relação aos animais, mas também em relação aos membros de sua família.

Críticos.com.br - O Kadaré se referia ao ciclo do kanun como uma máquina com rodas e engrenagens. Quando você leu o livro, quando ele fala das rodas dentadas e da engrenagem, você logo pensou na bolandeira?

WALTER SALLES - Não, porque eu não a conhecia naquele momento, mas eu parti para a busca do que pudesse traduzir cinematograficamente a essência daquilo que estava sendo narrado. Eu não acho que a transcrição de um livro deva ser literal, eu acho que você deve procurar descobrir a essência que a literatura oferece para melhor traduzi-la no cinema. E uma das coisas que me deixou mais feliz nesse processo foi o cara ter dito que, dos três filmes inspirados no mesmo livro, aquele feito numa latitude mais distante da sua é o que parecia o mais próximo da intenção original.

Críticos.com.br - Você descobriu o livro dele por acaso ou alguém o indicou para você já com a intenção de fazer um filme?

WALTER SALLES - Meu irmão me mostrou o livro no momento em que ele chegou a pensar em namorar a ficção. Depois, ele resolveu não seguir esse caminho e percebeu que ele queria ser, antes de mais nada, um documentarista. O livro ficou comigo durante um período de seis meses em que eu acompanhei o lançamento do Central em vários países e li talvez uns vinte, vinte e poucos romances. Depois da lenta decantação do tempo, o único que ficou foi esse.

Próxima

.Steven Spielberg, Uma Biofilmografia por Fernando Albagli
.Um Filme é uma Carta de Amor por Luciano Trigo
.Copacabana Não Engana Eduardo Coutinho por Carlos Alberto de Mattos
.Woody Allen, Uma Biofilmografia por Fernando Albagli
.Entrevista com Walter Salles por Criticos Com Br
.Entevista Dens Villeneuve por Myrna Silveira Brandão


Conheça os críticos que criaram o site e sua proposta.
Todo o conteúdo © 2002 Críticos.com.br. Todos os direitos reservados.
By CANVAS