Promoção TUDO SOBRE O OSCAR

O ESTUDO NADA EXPLÍCITO SOBRE UM INCOMPREENDIDO

Por MARCELO JANOT
7/6/2002

O Pornógrafo é levemente inspirado na trajetória do cineasta francês Francis Leroi, que faleceu em março deste ano e ficou conhecido em seu país como "o intelectual do pornô". Chegou a flertar com a Nouvelle Vague no início da carreira, trabalhando como assistente de Claude Chabrol. Estudou filosofia e foi autor de quadrinhos, mas a fama só veio no final da década de 60. Enquanto a França vivia os reflexos do turbilhão de Maio de 68, Francis fez da pornografia sua própria revolução, tendo realizado mais de 20 filmes, sete deles da série pornô-soft Emanuelle, estrelada por Sylvia Kristel.

Mas O Pornógrafo não se pretende uma cinebiografia. O personagem de Jacques, um famoso diretor de filmes pornográficos da década de 70 que, com dificuldades, retorna à ativa, tem muito de seu intérprete, o francês Jean-Pierre Léaud, alter-ego de Truffaut desde Os Incompreendidos e um dos atores-símbolo da Nouvelle Vague. A dificuldade que Jacques tem para ser compreendido nos dias atuais está implícita na naturalidade dos gestos de Léaud, em seu olhar desolado e no caminhar hesitante. É Léaud a alma deste filme sobre o sobrevivente amargurado de uma geração que não consegue adaptar suas utopias ao mundo presente, ao mesmo tempo em que permanece fiel a elas.

Quem for ao cinema esperando uma espécie de versão francesa de Boogie Nights, o filme de P.T. Anderson sobre a decadência da indústria pornográfica americana, além de se entediar vai descobrir pouco mais que uma zapeada pelo canal pornô da tv paga revelaria. Há detalhes interessantes, como a aversão do diretor às unhas pintadas da atriz, a recusa dele em olhar uma cena de cópula (encenada sem subterfúgios - é sexo explícito mesmo), a relação com o produtor, a divertida "interpretação" dos atores. Pouco mais que isso.

O jovem diretor-roteirista canadense Bertrand Bonello está mais interessado, isto sim, em investigar a complexa personalidade de Jacques, o pornógrafo que diz que o único resíduo de humanidade nos filmes do gênero está no ato da felação. Pornografia à parte, há uma subtrama que na verdade é o cerne do filme: a relação de Jacques com o filho Joseph, que havia se afastado ao descobrir a ocupação do pai. O reencontro dos dois suscita uma interessante discussão sobre o fim das utopias. Joseph é um universitário disposto a se engajar politicamente, mas o vazio que se lhe apresenta é abissal e ele e seu grupo optam por uma nova forma de protesto: o silêncio. Seu pai preferiu atravessar o Maio de 68 filmando sexo explícito. A não compreensão da opção paterna é que parece ter sido o principal fator do rompimento.

Bertrand Bonello não quer explicar muito. Seu filme é um estudo de personagem ancorado na maestria interpretativa de Jean-Pierre Léaud. Lá pelas tantas entra em cena uma jornalista obcecada em desvendar a personalidade de Jacques. Ele reluta, mas acaba concedendo a entrevista, que soa como uma colher de chá do diretor para o espectador - caso este tenha paciência de esperar até o fim.

# O PORNÓGRAFO (LE PORNOGRAPHE)
FRANÇA/CANADÁ, 2001
Direção e roteiro: BERTRAND BONELLO
Produção: CAROLE SCOTTA
Fotografia: JOSÉE DESHAIES
Montagem: FABRICE ROUAUD
Música: LAURIE MARKOVITCH
Elenco: JEAN-PIERRE LÉAUD, JÉRÉMIE RÉNIER, DOMINIQUE BLANC, THIBAULT DE MONTALEMBERT, OVIDIE

Duração: 108 min.
 


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