DIRETOR DE "AMNÉSIA" FAZ FILME PARA SE ESQUECER

Por MARCELO JANOT
21/08/2002

Embora Nelson Rodrigues há muito já tivesse afirmado que a unanimidade é burra, ainda assim causa espanto ver um thriller convencional como Insônia sendo tratado por toda a crítica como se grande filme fosse. Depois de ter realizado uma obra brilhante como Amnésia (Memento), um dos filmes policiais de estrutura mais original e surpreendente dos últimos anos, o diretor Christopher Nolan parece ter sido amarrado às rédeas de Hollywood.

Não deve ser fácil para um diretor jovem saudado como revelação conseguir sair incólume dessa mudança. Após trabalhar com total liberdade na direção e roteiro de um filme independente de baixo orçamento, com atores muito bons mas não muito conhecidos, Nolan agora se vê como diretor contratado por um poderoso estúdio para refilmar um sucesso do recente cinema norueguês, ao custo de quase US$ 50 milhões e tendo que administrar egos e talentos de Al Pacino e Robin Williams. Como as pequenas alterações no roteiro não foram feitas por Nolan, o que poderia se esperar dele? Ao menos que imprimisse algum estilo à direção.

Seria muito radicalismo querer esperar de Nolan outro Amnésia. Mas Insônia é tão frouxo, previsível e sem clima que nem de longe parece levar a sua assinatura. Fora a tentativa pífia de imprimir um toque autoral com a repetição de fotogramas de algo que parece um tecido se decompondo, ele se afoga num mar de clichês. Tudo é tão óbvio que o espectador menos paciente sentirá tanto sono quanto Al Pacino no filme, só que, ao contrário deste, conseguirá dormir - enquanto na tela o cenário é uma cidadezinha do Alasca onde a noite nunca chega, fora dela o escurinho do cinema facilita o cochilo.

A trama policial obedece a todas as regras do formulário hollywoodiano. Muitos diálogos para mastigar a trama como se o espectador fosse retardado (eles não aprendem com as aulas de David Mamet!), um policial veterano em crise, um psicopata intelectual, uma jovem não tão inocente vítima de assassinato, um namorado folgado que vai preso como bode expiatório, uma jovem policial inexperiente mas esperta o suficiente para desvendar o mistério, um tiroteio e...fim! Não dá vontade de pedir o dinheiro de volta?

Ah, e tem a transformação porque passa o personagem de Al Pacino, vendo o dia passar em claro, as olheiras crescendo e sua resistência chegando ao fim. É a história de um homem testando seus limites físicos, éticos e morais...que bonito.

Em 1993, o diretor holandês George Sluizer foi convidado por um grande estúdio de Hollywood para refilmar seu próprio filme O Silêncio do Lago, grande sucesso na Holanda em 1988. Pois ele conseguiu piorar a própria obra. Geralmente é isso que acontece com essa mania de os americanos só quererem ver filmes falados em inglês, interpretados por astros hollywoodianos. E o promissor Christopher Nolan lamentavelmente aceitou embarcar nessa canoa furada. Merece outra chance. Aguardemos.

# INSÔNIA (INSOMNIA)

EUA,2002
Direção: CHRISTOPHER NOLAN
Roteiro: HILLARY SEITZ
Produção: BRODERICK JOHNSON, PAUL JUNGER WITT, ANDREW A. KOSOVE e EDWARD McDONNELL
Fotografia: WALLY PFISTER
Montagem: DODY DORN
Música: DAVID JULYAN e JAMIE REID TAIT
Elenco: AL PACINO, ROBIN WILLIAMS, HILLARY SWANK, MARTIN DONOVAN
Duração: 118 min.
site: http://dontcloseyoureyes.warnerbros.com/

 


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