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SEM MOTIVOS PARA FESTA
Por CLÉBER EDUARDO*
09/08/2002
Ugo Giorgetti tem construído uma obra que, à parte as especificidades de cada filme, revela coerência temática em seu conjunto. A maioria de seus personagens vive em uma espécie de limbo. Ou tiveram dias melhores, do ponto de vista social, financeiro e existencial, ou aguardam sua chegada. Não é por acaso ou falta de recursos, no caso da produção, que eles estejam limitados pelo espaço. Em Jogo Duro, era uma casa. Em Festa, uma sala. Em Sábado, um prédio. Em Boleiros, no tempo real, um mesa de bar. As paredes não são, nestas obras, apenas de concreto. Também servem como metáfora para o emparedamento de lembranças e expectativas de quem não pode conciliar os desejos com a possibilidade de começar ou continuar a realizá-los. São personagens presos à suas condições - das mais diversas naturezas - e impotentes para se libertar da prisão. Giorgetti lida com os limites da vida. Mostra a reação, em última instância, à falta de liberdade. Sempre com humor e amargura, não necessariamente nessa ordem.
Não é diferente em O Príncipe, seu sexto longa-metragem. No entanto, há, sim, uma diferença. A prisão aqui não é no espaço. Pelo contrário. Eduardo Tornaghi, o protagonista, de nome Gustavo, não pára de se mover. Ele empreende um tour por São Paulo, à procura de amigos mantidos na memória afetiva, depois de uma ausência de 20 anos, durante os quais morou em Paris. Passa o tempo todo deslocando-se pela cidade, vendo sua degradação urbana, social e cultural, que o deixa espantado e sem reação verbal. Também reencontra os pares de juventude, agora não mais alimentados de sonhos, utopias e ambições intelectuais, mas acomodados no pragmatismo, dilacerados pela amargura de quem perdeu as convicções ou deslocados dentro da nova ordem. Gustavo enxerga o presente com o referencial de suas lembranças dos anos 70. Sente-se um alienígena, ou fantasma, vagando por uma nova era. Está preso é no espaço percorrido pelo tempo e pelo processo histórico do qual não tomou parte. Sintomaticamente, seu sobrinho, professor, quer reinventar a história.
Só a imaginação e a arte poderiam romper limites, daí as citações de O Aleph, de Jorge Luiz Borges. Na verdade, nem a arte. Esta está limitada pelo marketing. No lugar das idéias de antes, temos a ação, regida pelo dinheiro . Como escreveu Padre Antonio Vieira, no Sermão da Sexagenária, pensamentos não movem o mundo, mas sim obras e ação. Movem sim, mas, como mostra Giorgetti, não para melhor, ou não necessariamente.
Embora o título possa ser entendido como referência à FHC, pois assim Glauber Rocha o denomina nos anos 70, O Príncipe refere-se à obra homônima de Maquiavel. "Príncipes se tornaram grandes porque não levaram em conta sua fé e souberam, por ardil, enganar o espírito dos homens e, por fim, sobrepujaram os que se fundaram na lealdade", escreveu o conselheiro político dos séculos XV e XVI em um dos trechos. Gustavo perceberá, em seus amigos, a máxima da era FHC: esqueçam o que escrevi. Para se encostar o poder, dá-se um pé nas idéias. Gustavo, autor de uma dissertação sobre Maquiavel, fica pasmo. É como se tivesse dado um salto no tempo, de duas décadas, e não visse sentido nas mudanças ocorridas no período. Diante delas, cala-se. Nada há a fazer. Como diz o filho de Jean-Pierre Leáud em O Pornógrafo, outro filme sobre conflito entre as utopias do passado e a falta de ilusões do presente, resta o silêncio como forma de contestação.
Mas o diretor não culpa os outros, assim abstratamente e sem senso de responsabilidades, pelo ordinário mundo novo. As transformações da realidade ao redor dos personagens, para muito pior na visão de Giorgetti, estão umbilicalmente ligadas às transformações deles próprios. Não só o mundo como seus amigos perderam o encanto. Estão inseridos no sistema, sem necessariamente concordar com ele, ou foram levados a abandoná-lo, talvez por não poderem alterá-lo. É o raciocínio de Marcuse: quem não é assimilado acaba ficando de fora. Mais uma vez, a idéia de prisão.
Uma visão determinista dá o tom a esse filme tão dolorido e cético para possibilidades de resistência à degradação geral. É como se as coisas estivessem aprisionadas nesse estado turvo de coisas porque fazem parte do inexorável destino individual e coletivo. O sentimento de impotência difere O Príncipe de seu primo cinematográfico mais próximo, Nós Que Nos Amávamos Tanto (1974), de Ettore Scola, obra-prima também sobre a perda e desgaste das ilusões de um grupo de amigos. No filme italiano, os dramas individuais caminham com o processo coletivo, no caso o da Itália dos anos 40 a 70, a ponto de às vezes serem moldados por este contexto. Não deixa de ser curioso que o período de nuvens de seu filme, os anos 70, é justamente o tempo lembrado como o do encanto em O Príncipe. Cada etapa com seus projetos e abortos. Mas o olhar de Scolla é menos cinzento. Ele mostra ao final que, mesmo o "tempo tendo passado" para os personagens, como diz o crítico de cinema Nicola (Stefano Satta Flores), o processo de resistência continuará a persistir. Não importa contra o que se está resistindo. Tampouco se essa resistência acarretará em vitórias e conquistas. Importa o processo, não o resultado. Essa postura cria um abismo entre um filme e outro. O Príncipe expõe uma visão de cansaço. Nós Que Nos Amávamos Tanto insemina a reação permanente. Nos mínimos detalhes da vida.
O parentesco com o cinema italiano é recorrente na filmografia de Giorgetti. Pode ser detectado na capacidade de, sem abrir mão de certa angústia e melancolia, rir do sentido trágico de seus personagens. Parece o fruto da consciência de que a felicidade é uma grande ilusão. E a vida um imponderável sem compromisso com justiça, sem recompensas para sacrifícios e sem sentido para esses sacrifícios desprovidos de compensação. Seus filmes não têm peninha dos tipos retratados. Ás vezes, como com os coadjuvantes cheios de verniz social de Festa e Sábado, até os despreza. Já as figuras menos privilegiadas são mostradas com dignidade, porém sem idealização. Essa combinação de acidez com graça lírica aproxima o diretor, guardadas as peculiaridades de cada autor e de cada cultura, de mestres da comédia como Dino Risi e Mario Monicelli. Não importa se são referências conscientes, com os quais dialoga, pois o importante é essa afinidade do olhar.
No ambiente doméstico, o do cinema brasileiro, Giorgetti fica em casa. Taxado de excessivamente paulistano por alguns críticos e distribuidores, como se isso fosse um "defeito", o diretor expressa traços característicos de uma certa noção de cinema de São Paulo. Essa produção tem se caracterizado, em sua variedade temática e estética, por expressar o mal-estar. Não existe nos filmes dos diretores nascidos ou radicados na cidade o tom de celebração da vida e do país como muitos trabalhos cariocas. Predomina, ao contrário, o impasse. Alguns títulos das últimas safras, como Um Céu de Estrelas, de Tata Amaral, e O Invasor, de Beto Brant, transpiram esse tom nebuloso. Mas mesmo nos "infantis", como Castelo Rá-Tim-Bum, de Cao Hamburger, e Os Três Zuretas , de Cecílio Neto, predominam as névoas. Até quando filmam fora da metrópole, como Eliane Café em Kenoma, Beto Brant em Matadores e Toni Venturi em Latitude Zero, os paulistas carregam junto o incômodo.
Essa visão sombria percorre as obras de Walter Hugo Khoury, em um sentido existencial, e passou pelas experiências do Cinema Marginal, que mergulharam no dilaceramento narrativo, até chegar a uma desconstrução/impasse, para refletir em imagens o dilaceramento político e social, sintoma de um país então atolado nas trevas (regime militar, AI-5). No caso de O Príncipe, há uma ponte, em certo sentido, com São Paulo SA (1964), de Luiz Sergio Person, talvez a obra-prima sobre a cidade. Ao mostrar a sintonia entre ambiente e personagens, Person antecipou a esterilidade individual e a degradação urbana gerada pelo progresso tresloucado da metrópole.
Pois os efeitos mais nocivos do progresso sem moral e civilidade estão expressos no filme de Giorgetti. O centro financeiro do país produz o luxo e o lixo. Dinheiro traz benefícios, mas também a vulgaridade. Por estar tão colado ao mundo fora do mundo fictício, é inevitável analisar o filme com os olhos na realidade. Nesse sentido, a figura de Gustavo/Tornaghi, para além da intenção do autor, tem certo simbolismo. O personagem saiu do Brasil no início dos anos 80. Teve os melhores anos de sua vida sob o teto da ditadura militar e abandonou o barco quando os exilados começam a regressar. Segue no contrafluxo histórico. Esteve do lado da resistência política ou intelectual e parte no início do projeto de democratização da sociedade. A fuga do personagem não tem razões reveladas pelo roteiro. Isso ressalta a penumbra na qual está envolto. Gustavo retorna ao país quando sua geração está no poder, seja no poder oficial, no das empresas ou no da cultura. E descobre que, com o poder nas mãos, desviaram-se dos planos. Ou viviam em uma ilusão ou a realidade os engoliu. Impossível não perceber uma certa mea-culpa dessas figuras em vários momentos.
É preciso destacar a economia de expressões de Tornaghi na composição de seu sorumbático Gustavo. Embora as interpretações tenham desníveis, em uma ou outra cena, também estão entre os pontos altos. Adriano Stuart não precisava de meia cena para mais uma vez mostrar - e nos escandalizar com sua pouca presença nas telas - como é um monstro nesse papo de interpretar com sutilezas. Bruna Lombardi é uma figura presente em sua ausência, mas, quando chamada ao primeiro plano de uma seqüência, não deixa a personagem já parcialmente construída se dissipar. E há a belíssima intervenção cênica de Elias Andreatto, como um voluntário do assistencialismo social, na mais emocionante e verdadeira cena do filme. Que ator! Nesses fragmentos, O Príncipe se eleva em sua dor. Pode-se não concordar integralmente com seus pontos de vistas, não se aprovar a qualidade cinematográfica de algumas cenas, mas não há como negar sua profunda autoralidade, sua sinceridade desconfortante e sua honestidade de não querer agradar o espectador com verdades postiças.
#O PRÍNCIPE
BRASIL,2002
Direção e Roteiro: UGO GIORGETTI
Produção Executiva: MALU OLIVEIRA
Fotografia: PABLO LAZZARINI
Montagem: MARC De ROSSI
Música: MAURO GIORGETTI
Elenco: EDUARDO TORNAGHI, BRUNA LOMBARDI, RICARDO BLAT, OTÁVIO AUGUSTO, EWERTON DE CASTRO, ELIAS ANDREATO
Duração: 102 min.
site: www.spfilmes.com.br
*Cléber Eduardo é crítico de cinema desde 1987. Foi repórter da revista VIDEO NEWS e crítico nos jornais FOLHA DA TARDE e DIÁRIO POPULAR. Desde 1998, é crítico e repórter da revista EPOCA, e colabora com a revista SINOPSE, da ECA/USP. Prepara o livro A Inclusão dos Excluídos no Cinema Brasileiro, baseado em sua dissertação de mestrado.
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