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WOODY ALLEN NÃO É MAIS AQUELE

Por RICARDO COTA
19/07/2002

Ao contrário do que possa parecer, o crítico não faz parte da lista de colegas, sobretudo internacionais, que há um bom tempo se dedica a triturar os novos filmes do cronista de Manhattan. Longe disso. Durante dois anos, o crítico em questão se dedicou a traçar parâmetros entre a obra de Allen e a do sueco Ingmar Bergman, parâmetros estes fundamentados no curso Bergman/Woody Allen, Dois Cineastas Face a Face, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, em 1992. É verdade que naquele tempo Allen vivia fase muito melhor, expressando sua admiração pelo sueco não apenas nos evidentes Interiores e Setembro, em que o radicalismo dos temas intimistas e existenciais levou-o até a abdicar de uma de suas mais fortes características - a utilização funcional da trilha sonora.

Só para lembrar, entre 88 e 92 Allen filmara, entre outros, A Outra, Crimes e Pecados e Maridos e Esposas. Todos os três, de alguma forma, são reflexos bergmanianos. A Outra, incursão nas inquietudes femininas, remete a Face a Face; Crimes e Pecados (na opinião do crítico seu melhor filme) dedica uma seqüência inteira às reminiscências de Morangos Silvestres; e finalmente Maridos e Esposas, ainda que explicitamente auto-referencial, ecoa Cenas de um Casamento Sueco. São filmes em que a sombra de Bergman perdeu o estigma da cópia de estilo. Allen filtrou as influências sem perder o humor, a musicalidade, o olhar urbano nova-iorquino e os comentários pertinentes sobre a vida a dois. Chegou mesmo a adotar, em Maridos e Esposas e Um Misterioso Assassinato em Manhattan, uma câmera realista, suja, sacada dos filmes de John Cassavettes. É a fase mais madura do cineasta.

Há outras demonstrações da dívida cinematográfica do crítico para com o diretor. Manhattan foi o filme que abriu a cabeça de jovem cinéfilo para o cinema americano, num momento em que o crítico se encontrava entretido com os vanguardistas soviéticos, o neo-realismo italiano e a nova vaga européia pós-60. A poética de Allen minou os preconceitos do radicalismo antiimperialista. Por fim, dois encontros com o próprio diretor no Michael's Pub em Nova Iorque, além de um rápido bate-papo com direito a autógrafo, transformaram-se em troféus guardados a sete chaves na memória.
v Posto isso, sinto-me à vontade para dizer que Woody Allen não é mais aquele. Desde Tiros na Broadway, realizado em 1994, qualquer novo filme do cineasta é visto com a mesma simpatia mas com uma dose muito grande de boa vontade. Há uma profusão de comédias nada pretensiosas, como Poderosa Afrodite e Os Trapaceiros, e alguns desastres evidentes, como o pavoroso musical Todos Dizem eu te Amo e o alongado Celebridades. Desconstruindo Harry e Poucas e Boas podem ser considerados exceções. Mas ainda nesses filmes não se vê nada que o próprio Woody Allen já tivesse feito melhor antes. As referências biográficas e a narrativa episódica de Desconstruindo Harry deixam saudades de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Hannah e suas Irmãs e A Era do Rádio. Já Poucas e Boas, documentário fake, não chega aos pés dos comentários sofisticados de época do iluminado
Zelig
. Woody Allen parece não ter resistido a si mesmo e vive de lampejos da própria genialidade.

Toda essa introdução leva a O Escorpião de Jade, filme visto na Sala Japonesa do cinema La Pagode, em Paris, no início de 2002. A informação não é um ataque de afetação do crítico. Serve para lembrar que mesmo na França, onde Woody Allen sempre foi objeto de culto, o interesse pela obra do diretor não é mais o mesmo. A artista plástica Vivien Ostrowski, por exemplo, radicada na capital francesa, confessou não ter visto nenhum dos últimos filmes do diretor. "Os comentários de amigos, intelectuais e jornalistas, são desanimadores", revela. "Prefiro deixar para ver em vídeo". Na defensiva, a crítica de cinema Marie-Christine Luton, membro da comissão de seleção da mostra de filmes de diretores iniciantes em Cannes, detecta uma tendência em Woody Allen a retornar ao tom de comédia rasgada de seus primeiros filmes. "Muitos esquecem que o Woody Allen de Um Assaltante Bem Trapalhão, Bananas e O Dorminhoco era inspiradíssimo em Bob Hope. Não vejo porque criticá-lo só porque ele voltou às origens", observa a jornalista francesa.

A prova de que Woody Allen não é mais unanimidade pode ser constatada no site www.rottentomatoes.com , resumo de críticas norte-americanas que são mensuradas por intermédio de um "tomatômetro". O Escorpião de Jade, nosso filme em questão, obteve 51% de críticas desfavoráveis. E bota desfavorável nisso. Paul Tatara, da CNN, acusa os últimos filmes do cineasta de não passarem de "rascunhos". Já Arny Taubin, do Village Voice, que tem sido o veículo das mais ácidas críticas a Woody Allen, pega pesado ao dizer que "o melhor a ser dito sobre O Escorpião de Jade é que não é tão terrível quanto Celebridades". São apenas sinais de como Allen tem sido tratado pela crítica.
v O Escorpião de Jade é um retrato do Woody Allen dos últimos tempos. Sobra estilo, falta idéia. Há o carimbo inconfundível dos créditos iniciais, a trilha musical requintada, com destaque para Sophisticated Lady, Tuxedo Junction e How High the Moon, o apuro fotográfico a cargo de Zhao Fei e o elenco afinado, com participações sempre surpreendentes, no caso de Helen Hunt e Dan Aykroyd. O que falta então? Um roteiro ao nível de Woody Allen.

A ação se passa em 1940. Allen é C.W. Briggs, investigador de uma firma de seguros cujo nome é uma referência mais do que óbvia ao comediante W.C.Fields. O filme trabalha na sintonia do noir. Atmosfera intimista, traições, disputas amorosas, crime, mistério e uma loura fatal. Briggs é um investigador à antiga, cujo método se baseia em "colocar-se na pele do criminoso". Suas teses batem de frente com as de Betty Ann Fitzgerald (Helen Hunt), que opta por métodos mais técnicos e objetivos. Apesar dos conflitos constantes, Briggs e Betty destoam do ambiente. Se ele está longe de ser o arquétipo do investigador galante e sedutor, ela está muito mais próxima da imagem da mulher moderna, atuante, determinada e independente. Só a mágica unirá os dois. Vítimas de um prestidigitador astucioso, os inimigos se transformam em amantes e em cúmplices numa série de roubos de jóias.

O Escorpião de Jade revive o clássico cinema de estúdio hollywoodiano. Há pouquíssimas cenas externas. Tudo está concentrado na força do diálogo e no encadeamento das ações. É ainda uma screwball comedy (comédia amalucada), em que a antipatia inicial do casal aos poucos se transforma em paixão. Tudo calibrado por nonsense. Sem inovar, Allen reforça alguma de suas melhores teses, como a visão do amor como sortilégio e a idéia de que a rotina é insuportável sem um toque de mágica (a seqüência final, da queima de fogos chineses, exemplifica bem isso). O sabor é requentado.

Woody Allen parece perdido em meio a uma profusão de referências. Há uma inadequação excessiva em cada plano. A falta de viço dos diálogos, que deveriam ser a viga mestra do filme, deixa evidente a fragilidade da estrutura narrativa, sustentada por uma única piada, a da hipnose. Gags de apelo intelectual, como as citações ao cubismo, Picasso e Hitler, só não estão mais deslocadas do que a indigência amorosa do protagonista, que em nenhum momento sugere sedução. Espero estar errado, mas fica a impressão de que não há mais espaço para Woody Allen em filmes de Woody Allen.

Talvez por isso, o melhor filme em que Woody Allen apareceu nos últimos tempos não tenha sido um filme de Woody Allen. Wild Man Blues, documentário de Barbara Kopple sobre a turnê do cineasta como músico pela Europa, revela aspectos que nos fazem pensar como deveria estar hoje aquele mesmo personagem outrora apaixonado em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e desiludido em Crimes e Pecados. O alter ego do diretor estaria envelhecido, amarrado ao frescor de paixões jovens, com mais manias e eternamente ligado aos laços da tradicional família judaica. Tudo isso sem perder o humor, cada vez mais acre. É este Allen que ainda tem lugar nos filmes de Woody Allen. Pelo menos naqueles com Woody Allen.

O ESCORPIÃO DE JADE (THE CURSE OF THE JADE ESCORPION)
EUA, 2001
Direção e Roteiro: WOODY ALLEN
Produção: LETTY ARONSON
Fotografia: ZHAO FEI
Montagem: ALISA LEPSELTER
Design de Produção: SANTO LOQUASTO
Direção de Arte: TOM WARREN
Figurinos: SUZANNE McCABE
Decoração: JESSICA LANIER
Elenco: WOODY ALLEN, HELEN HUNT, DAN AYKROYD, CHARLIZE THERON, DAVID OGDEN STIERS, ELIZABETH BERKLEY
Duração:103 min.
Site:www.dreamworks.com/jadescorpion/

leia também: WOODY ALEN, UMA BIOFILMOGRAFIA
 


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