Promoção TUDO SOBRE O OSCAR

A FÁBULA É O QUE MENOS INTERESSA

Por LUCIANO TRIGO
21/06/2002

O diretor canadense Denis Villeneuve nasceu em 1967, e esta é uma informação valiosa para se apreciar Redemoinho: o filme lida com a questão das relações amorosas em tempos ambíguos exatamente pela ótica da sua geração, que já foi chamada, sugestivamente, de "geração X" - "X" sendo a letra usada para designar a incógnita na matemática, como lembrou Godard num de seus filmes.

Redemoinho é um filme "pequeno" no bom sentido. Não almeja grandes platéias ou bilheterias, provavelmente ficará pouco tempo em cartaz e logo será esquecido. Mas tem alguns méritos raros, entre eles a honestidade e o carinho com que constrói seus personagens - sobretudo a protagonista Bibiane, interpretada pela interessante Marie-Josée Croze (a moça lembra bastante, tanto pela beleza quanto pela interpretação, a Irène Jacob de A Dupla Vida de Véronique). E também a atenção aos detalhes, às nuances psicológicas, tudo encadeado num roteiro bastante criativo.

Curiosamente, o que Redemoinho tem de dispensável é aquilo pelo que vem sendo mais lembrado: a opção por inserir na narrativa um elemento fabular, meio surreal - a história é contada por um peixe, que pode ser entendido como um anjo da guarda, e que enseja uma brincadeirinha final bastante tola. Pois o que interessa verdadeiramente é, primeiro, o que o filme apresenta de retrato realista da desordem amorosa em que vivemos; segundo, a reflexão sobre o tema da "segunda chance", aqui explorado de forma delicada e envolvente.

Bibiane Champagne, 25 anos, é uma bem-sucedida empresária que comanda a rede de lojas que herdou da mãe. Bonita, em dia com seu tempo, ela gasta as noites nas boates da moda, tem uma vida sexual movimentada, bebe e consome drogas moderadamente e... vive uma solidão profunda. É uma personagem típica da era de relações fugazes em que mergulhamos: mudando um detalhe ou dois, conheço três ou quatro moças que se encaixam no perfil de Bibiane. Infelizmente, como a vida não é um filme, a maioria delas não terá uma segunda chance para descobrir as coisas essenciais da existência e rever seus valores...

Bêbada após uma balada, Bibiane atropela por acidente o funcionário de uma peixaria, descobre pelos jornais que o matou e fica desesperada. Sua angústia enfim encontra um objeto palpável. Mas o encontro casual com o filho da vítima é a chance que ela tem, não para reparar seu erro - e um diálogo que com um estranho no metrô sobre o impulso para confessar seu crime é lapidar, quase uma argumentação filosófica sobre o sentido da culpa) - mas para salvar a si mesma da armadilha em que transformou sua vida. Um trauma pode fazer bem, especialmente quando ele é superado a dois.

O papel redentor do amor - tema difícil de ser explorado, pois fica fácil escorregar na pieguice ou na falsidade - dá um sentido maior ao filme. Redemoinho só não é melhor porque peca em alguns detalhes importantes: por exemplo, o ator que faz o filho do morto (Jean-Nicholas Verrault) é duro e inexpressivo, o que salta ainda mais aos olhos quando sua falta de talento é confrontada com a atuação luminosa de Marie-Josée. Ainda assim Redemoinho é de longe o melhor filme canadense dos últimos anos, tão importante enquanto documento antropológico quando "O declínio do império americano", de Denys Arcand - que aliás tem o mesmo produtor, Roger Frappier. Altamente recomendável, o filme ganhou este ano o Prêmio da Crítica (FIPRESCI) no Festival de Berlim.

# REDEMOINHO (MAELSTRÖM)
CANADÁ, 2000
Direção e roteiro: DENNIS VILLENEUVE
Produção: ROGER FRAPPIER e LUC VANDAL
Fotografia: ANDRÉ TURPIN
Montagem: RICHARD COMEAU
Elenco: MARIE-JOSEÉ CROZE, JEAN-NICHOLAS VERRAULT, STEPHANIE MORGENSTERN
Duração: 88 min.

>> LEIA ENTREVISTA COM O CINEASTA DENIS VILLENEUVE
 


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