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BOBAGEM FILMADA COM ESTILO
Por
MARCELO JANOT
14/6/2002
Rodado em 1997, Pi, o filme de estréia do diretor americano Darren Aronofsky - então recém-saído da faculdade de cinema -, é tudo que se espera de um diretor recém-saído da faculdade de cinema: uma obra pretensiosa, esteticamente ousada e inventiva. A recompensa veio com o prêmio de direção no Festival de Sundance de 1998. Prêmio justo. Mas falta muito a Pi para poder ser considerado um grande filme.
A demora para chegar às telas brasileiras lhe é desfavorável. Ano passado, vimos por aqui o ótimo Réquiem para um Sonho, o filme seguinte de Aronofsky, em que ele aprimora algumas de suas experiências de linguagem utilizadas em Pi. A principal delas: o que o diretor costuma definir como "montagem hip hop", a repetição de uma mesma seqüência de cortes rápidos, que servem para pontuar e dar ritmo ao filme, exatamente como os loops (repetição de certos trechos) são utilizados nas músicas do hip hop.
Pois bem: o que surpreendia em Réquiem agora ficou com ar de déja vu. Restam o interessante uso dos contrastes na fotografia preto-e-branca e a agilidade da montagem como um todo, que combinada com um cuidadoso trabalho de edição sonora, confere ao filme uma atmosfera inquietante, que aguça a curiosidade do espectador por um bom tempo. Este último aspecto pode ser considerado uma proeza, porque o roteiro é uma daquelas bobagens de elevadíssimo nível de pretensão. Fosse Aronofsky um diretor um pouco menos talentoso e seu filme de estréia corria o risco de virar um tremendo abacaxi que fatalmente o colocaria no limbo, ao invés de abrir-lhe as portas de Hollywood (ele deve dirigir o próximo Batman).
Max Cohen (Sean Gullette) é um jovem gênio da matemática obcecado com a idéia de descobrir, a partir da função matemática Pi (a divisão da
circunferência de um círculo por seu diâmetro), padrões numéricos que expliquem desde a origem do universo à lógica do mercado financeiro de Wall Street. Após um encontro casual com um judeu ortodoxo em uma delicatessen, até a Torah entra no jogo dos números. Delírius tremens, alucinações e a recusa de contato físico com qualquer ser humano fazem parte da rotina do atormentado Max, que passa a ser perseguido por gente estranha interessada em suas fórmulas. Parece interessante? Poderia ser. Mas para quem não está nem aí para "revelações" como a de que toda existência está ligada à espiral, Pi não passa de uma grande bobagem embalada em formato "cult".
# PI
EUA, 1998
Direção e Roteiro: DARREN ARONOFSKY
Produção: ERIC WATSON
Fotografia: MATTHEW LIBATIQUE
Montagem: OREN SARCH
Música: CLINT MANSELL
Elenco: SEAN GULLETTE, MARK MARGOLIS, BEN SHENKMAN, PAMELA HART, STEPHEN PEARLMAN
Duração: 85 min.
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