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A TERRA DO DIABO E A CIDADE DE DEUS

Por CLÁUDIA MATTOS*
30/08/2002

Existe a Cidade de Deus e a Terra do Diabo. O filme, uma mais do que bem sucedida incursão do cinema brasileiro no território dos espetáculo de ação, narra o surgimento e a consolidação do poder do tráfico de drogas na favela. Com raras exceções, os personagens principais são criminosos e legisladores do absurdo que é este universo paralelo que existe em qualquer bolsão de pobreza do Rio. Nesse sentido, é extremamente fiel à realidade de qualquer comunidade carente carioca. Nada de espantoso. Basta lembrar que o filme é baseado no romance homônimo de Paulo Lins, um ex-morador da favela.

Neste sentido, o filme está mais para Terra do Diabo do que para o título original. O tráfico faz o que quer com os moradores trabalhadores, corrompe a polícia, transforma vítimas em bandidos sedentos por vingança, fere o direito básico de ir e vir e fecha a comunidade num gueto onde a lei e a ordem têm critérios próprios. Ou seja, transforma a favela num território ameaçador, tanto para quem lá vive, quanto para quem a vê de fora, reforçando a visão popular _ principalmente de quem está no asfalto _ de que a favela é um local perigoso.

E é. Não há como negar que as favelas sejam locais mais violentos. Com a omissão da polícia e o descaso do poder público, o único poder existente é o do tráfico. No entanto, a favela não é só violência. Embora sejam todos submetidos aos decretos dos traficantes, apenas uma pequena porcentagem dos moradores se envolve direta ou indiretamente na venda de drogas e no comércio ilegal de armas. Isso o filme só mostra por intermédio do narrador, Buscapé, que do tráfico só quer saber de arrumar um pouco de maconha de vez em quando e sonha em ser fotógrafo. O personagem, aliás, mal aparece no livro, e no filme é uma alegoria óbvia do próprio Paulo Lins.

No entanto, ao traçar o retrato da favela violenta e perigosa, o filme mostra, de forma subliminar, que a Terra do Diabo pode ser uma Cidade de Deus. Basta ver o elenco. Rosto conhecido mesmo, só o de Matheus Nachtergaele. No máximo, Gero Camilo, de Bicho de Sete Cabeças, e Seu Jorge, para quem foi fã do Farofa Carioca, podem parecer um pouco familiares. Quase todos os demais são atores selecionados nas comunidades carentes do Rio. Nascidos e criados dentro delas e, no máximo, com alguma experiência em pequenos grupos teatrais locais.

Depois de recrutado, o elenco de Cidade de Deus participou de uma oficina intensiva de preparação, o Nós do Cinema, que continua dando frutos _ curtas-metragens e especiais para TV estão a caminho _ sob o comando de Kátia Lund. Ao ver a qualidade do trabalho de Douglas Silva e Leandro Firmino da Hora, por exemplo, que interpretam o mesmo personagem, Dadinho (criança) e Zé Pequeno (adulto), como alguém pode achar que nas favelas todos são bandidos?

Leandro, nascido e criado na Cidade de Deus, e Douglas, do Complexo do Alemão, interpretam brilhantemente o mais cruel dos muitos vilões do filme. O fazem tão convincentemente que chega a dar medo falar com qualquer um deles logo depois de assistir ao filme. Vencido o temor, descobre-se que Leandro estava prestes a fazer prova para sargento do Exército, antes de ser selecionado para a oficina, e que nunca interpretara na vida. Hoje, não só é ator de cinema, como divide o palco com Matheus Nachtergaele em Woyzec, O Brasileiro. Douglas sonhava entrar para a Aeronáutica, mas agora tem experiência em teatro, cinema e televisão, algo de que poucos atores brasileiros podem se orgulhar. Os dois, assim como o resto do elenco, são favelados. Mas de forma alguma são bandidos. Os melhor, são ladrões, sim. Ladrões de cena.

Leandro e Douglas são só dois. Há um século o futebol recruta seus craques nas favelas. O cinema está seguindo o exemplo. Quando outros setores do mercado de trabalho fizerem o mesmo, vai se descobrir que a favela é um local com mais mocinhos do que bandidos e vai ficar muito mais fácil combater o poder do tráfico.

* Cláudia Mattos é jornalista, ex-editora do site VIVA FAVELA





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