CUMPLICIDADE CRIMINOSA

Por ALEXANDRE WERNECK *
30/08/2002

Cidade de Deus é um filme feito para produzir cúmplices. Cada minuto de projeção, cada imagem que passa diante dos olhos é um artifício retórico para conquistar não apenas a atenção (embora faça isso com uma intensidade de guerra), mas também o apreço da audiência. E isso já é produzido mesmo antes de o filme começar. Afinal, é um filme "social", feito a partir de um livro que é um "retrato fiel do cotidiano e da história da Cidade de Deus", violenta comunidade da Zona Oeste - violenta em vários sentidos, sobretudo com seus próprios moradores, vítimas de uma agressão social que os obrigou a irem para lá; é um filme que, ao ser produzido, "revela" (ou relembra) ao espectador os horrores que a exclusão social produziu e sua ponta mais terrível, a criminalidade, que ceifa milhares de jovens e crianças diariamente, reduzindo expectativas de vida médias e aumentando médias de falta de expectativa na vida; além disso, é um filme que, para ser produzido, entrou de fato no submundo (foi filmado em três favelas cariocas) e usou, como atores, jovens oriundos de comunidades, pessoas acostumadas com a linguagem, a lógica, a vida em locais como os apresentados na tela, o que, ao mesmo tempo em que confere realismo, naturalidade dramatúrgica. Isso produz uma chancela: o filme, além de valer como peça de entretenimento, valeria também como ação social, uma vez que interveio no mecanismo que produz jovens criminosos, interferindo de forma a salvar alguns deles do crime.

Tudo isso (e muito mais) confere a Cidade de Deus um estatuto de filme-convite. É a cumplicidade, a anuência, o que ele solicita à platéia. Mas como o filme tenta conquistar esse carinho da audiência? A operação é muito clara e transparece desde os primeiros fotogramas: Cidade de Deus é um filme com cara de novela com cara de filme. Seus elementos dramatúrgicos e visuais o aproximam imensamente de uma produção de TV, mas não de uma produção comum de TV, e sim de uma daquelas especiais, influenciadas pela própria linguagem de cinema, enfim, programas de TV "de luxo".

De imediato, há uma dica para isso: em vez de um título apenas, como de hábito no cinema, o filme tem uma vinheta (em que o menino Buscapé aparece tirando uma fotografia atrás de uma parede vazada), como se fosse uma novela ou uma minissérie. Mas não é apenas ali. Há outros recursos que denunciam a operação de conquista do público: a trilha sonora, constituída apenas de canções óbvias (o que também faz lembrar das produções da TV), colocadas não para pontuar, mas mais para sublinhar as cenas, quase como se apenas legendas fossem (em um plano aberto da favela pela manhã, a música que toca é, claro, Alvorada, de Cartola, Hermínio Bello e Carlos Cachaça; em uma cena para sugerir o clima bicho grilo, Metamorfose Ambulante, de Raul Seixas e Paulo Coelho; em um baile black, Sex Machine, de James Brown). Há também os efeitos visuais, principalmente as fusões e as manipulações digitais da imagem, como a da cena, logo na abertura, em que Buscapé se vê entre um grupo de bandidos e um de policiais e a câmera gira em torno dele rapidamente, com o fundo girando em velocidade diferente. Impressionante, dirão muitos espectadores deslumbrados com as imagens que parecem querer justificar o dinheiro pago pelo ingresso. Cidade de Deus vai deslumbrar muita gente, vai pegar facilmente os espectadores que são conquistados facilmente com migalhas de audiovisual adocicado (ainda que o doce tenha cara do amargor da violência urbana. Mas é só cara!)

Mas o recurso para conquista de cumplicidade mais forte que o filme utiliza é o produzido pela soma de todos os seus elementos, pontuados pelo ritmo imposto pela direção: Cidade de Deus é um filme de ação. Não um de heróis e vilões, mas ainda assim um filme de ação padrão, como os filmes americanos. E não é apenas macaquice estética deslumbrada. Ao narrar sua saga de criminalidade olhando para o cinema ianque, Fernando Meirelles, em vez de se inspirar em Sérgio Leone, Francis Ford Coppolla ou Martin Scorsese, parece ter se inspirado mais em um Quentin Tarantino. E nem foi nos momentos mais violentos dele, nos bate-bocas truculentos de Cães de Aluguel. Há em Cidade de Deus muito de Pulp Fiction - Tempo de Violência. E não só porque o filme recorra do humor, mas porque ele, como o outro, o faz como estratégia clara de apagamento do conteúdo da violência. Só que Tarantino tinha um bom motivo para isso: seu filme não era sobre a violência em si, mas sobre uma estética, sobre as tramas dos romances baratos de bancas de jornal. A questão de Cidade de Deus, entretanto, não é (ou não deveria ser) estética (e nem parece ser a de Meirelles e Katia Lund, uma vez que, esteticamente, ele apenas recorre a clichês). A questão de Cidade de Deus é o real, a sociedade, a criminalidade.

Mas como filme político, Cidade de Deus é uma fraude, é uma das produções mais mal-intencionadas já filmadas e um dos maiores desserviços já prestados, não só à sociedade que, em tese, buscaria soluções para o problema que o filme (diz que) apresenta, mas também ao cinema que a produziu. Cidade de Deus é uma excrescência estética e política, um erro, uma espécie de Frankenstein retórico que, no limite, como foi dito, apenas produz cúmplices.

E essa cumplicidade é muito mais séria do que apenas a anuência ao modelo estético que ora o filme apresenta e que parece propor como um modelo para o futuro de nossa cinematografia. É muito pior do que conquistar seguidores que vão recomendar o entretenimento ao amigo e fazer o filme fazer sucesso. Ao flertar com a imagem-espetáculo como flerta, ao transformar cada caso que narra em descaso, o filme apenas produz a indignação momentânea, a dramaturgização do problema social que "documenta", o apagamento do debate sobre as origens do problema.

Com sua retórica de bangue-bangue, Cidade de Deus faz a pior coisa que se poderia fazer com a história da Cidade de Deus: converte-a mito, em algo que não acontece, ou que acontece ad aeternum (com o argumento de que isso mostra que o crime continua lá, não importa quanto tempo passe), que existe em um deslugar, em uma localidade-símbolo. A Cidade de Deus do filme não existe, e não porque o retrato tomado pela câmera com sua fotografia naturalista não seja fiel à "realidade" (há até o desejo de um flerte com a linguagem de documentário ali), mas porque ela fica suspensa no ar, sem origem, senão a tradicional "culpa das autoridades", sem história senão a do mito (Zé Pequeno parece estar marcado para ser o vilão que se torna. Dadinho, a versão infante do bandido, parecia ter inscrita em seu DNA a maldade - seja lá o que isso seja - e ao crescer, o criminoso faz um pacto místico a fim de virar lenda). Fechada em si mesma, a Cidade de Deus se torna um campo do mal, onde pobres se matam uns aos outros, e nada tem a ver com a problemática socioeconômica que os produziu. Fechada em si mesma, a Cidade de Deus fica inexplicada, inexplicável, o banditismo é produzido porque fulano ou sicrano é mal e porque ele tem "sede de matar".

E esta é a cumplicidade que o filme produz: ao adotar esse tipo de operação, então, ele se torna cúmplice do processo histórico que produziu a favela que lhe serve de objeto. A cumplicidade estética se torna uma cumplicidade de fato, uma cumplicidade política, criminosa. E a anuência ao filme não deixa de ser cumplicidade a tudo isso. O argumento para que o filme tenha esse modelo estético não é único. De um lado, a necessidade de eufemizar uma realidade que, de tão dura, não poderia ser facilmente recebida pela audiência sem uma estética que a tornasse de mais fácil digestão. E não apenas no sentido do entendimento, mas no sentido da aceitação. Mas Meirelles parece ter se esquecido (ou talvez nunca tenha sabido) que estética é ética. Ele parece não saber que ao fazer um filme americano no Brasil estava transformando sessão de cinema em turismo, transformando o igual em diferente, o brasileiro em estrangeiro para si mesmo.

O outro argumento é o de que a linguagem assim, não apenas eufemizada, mas também alegrada, seria mais fiel à realidade. Além de didática, a estética de Cidade de Deus seria também um manifesto político, uma forma de fazer ver a dimensão humana dos personagens. Nas palavras de Katia Lund, o traficante também ri, também dança, também chora, também é feliz, também tem sonhos. O traficante também é gente, enfim. Tudo isso, inclusive o fato de que o traficante, como gente, também é sujeito à psicose e à inveja (como parece querer dizer o filme sobre Zé Pequeno), é verdade. Apenas um fascismo disfarçado, que se apega a um o discurso de lei e ordem, de segurança pública baseada no "bandido bom é bandido morto" pode achar que não. Mas não é, infelizmente, essa verdade o que aparece na tela. Cidade de Deus nunca é verdadeiro, embora o tempo todo (até nos créditos, quando usa imagens de jornalismo de TV para mostrar que está contando uma história real) flerte com a verdade. É possível mentir usando verdades, quem vota sabe disso.

E o filme ainda oferece um dado a mais que serve como argumento "a seu favor": a exemplo de boa parte do cinema do chamado renascimento, Cidade de Deus é um filme bem produzido; o suficiente para trazer aquela sensação de auto-estima que o brasileiro quer ter de seu cinema. "Finalmente fizemos um filme tecnicamente bom!", dirão muitos de Cidade de Deus, ignorando violentamente o fato de que a questão do cinema brasileiro já não é técnica há algum tempo. Além disso, cabe a pergunta de se apenas apuro técnico pode ser o ideal de uma cinematografia. Cabe perguntar se era preciso pagar o preço que é Cidade de Deus pelo orgulho de um cinema "bem realizado". Afinal, O Invasor é tão bem realizado quanto, Bicho de Sete Cabeças também e não padecem dos problemas de que padece este filme. Aliás, há mesmo aqui uma comparação inevitável entre O Invasor e Cidade de Deus. São dois filmes sobre a periferia, dois filmes sobre o submundo, dois filmes sobre a favela e sobre o tráfico de drogas. Mas enquanto o filme dos paulistas Fernando Meirelles e Katia Lund (considerada toda a aproximação que ela tem com a carioquice) sobre o Rio é o que é, o do paulista Beto Brant sobre São Paulo é sério (ainda que não se negue a ter humor), um filme que não se nega a ser cinema e a ser digno de seu próprio cinema.

O que há de positivo no filme de Meirelles e Katia Lund é o elenco. Alguns dos jovens usados praticamente como tipos são excelentes atores (embora alguns sejam ainda primários). O mais digno de nota, provavelmente, é Leandro Firmino da Hora, justamente o que encarna o bandido Zé Pequeno. Impressionante também é Seu Jorge, como Mané Galinha. Juntassem um grupo de garotos como aqueles a um filme sem as macaquices estéticas e narrativas de Cidade de Deus, talvez pudéssemos ter um filme.

* Alexandre Werneck é crítico de cinema do JORNAL DO BRASIL.




Conheça os críticos que criaram o site e sua proposta.
Todo o conteúdo © 2002 Críticos.com.br. Todos os direitos reservados.
By CANVAS