Promoção TUDO SOBRE O OSCAR

UMA REFLEXÃO URGENTE ATRAVESSA A CIDADE

Por ISMAIL XAVIER *
09/08/2002

Na dimensão do espaço, o cinema de Ugo Giorgetti nos deu a grande lição de como transformar a regra clássica da unidade de lugar - a casa à venda (Jogo Duro, 1985), a sala de espera (Festa, 1989) ou o prédio decadente (Sábado,1995) - num laboratório que evidencia o destino social dos despossuídos. Se a estes resta valer-se da condição de servidores para buscar expedientes de apropriação indébita pouco eficazes, são os espaços assumidos como centro da cena que compõem a imagem de sua exclusão: lá permanecem condenados a observar, de fora, a festa ou o jogo de cena profissional dos que "são alguém" e gozam de algum poder. Tais espaços podem abrigar um crime passional, ou copiosa agitação advinda de um cruzamento efêmero de olhares e de experiências, mas o efeito final que produzem é de vazio, desperdício, um precipitado de comédia humana que a ironia do cineasta compõe em sua natureza de classe e em seus contornos paulistanos. Não há futuro na venalidade do teatro dos olímpicos que aí comparecem de passagem, muito menos no acanhado teatro dos pés de chinelo. Quando estes respondem à "distinção" dos ricos com sua versão cafona do mesmo jogo, seu desempenho é simpático porque reação dos de baixo a uma agressão que é de estrutura, embora às vezes seja apenas dos gerentes, dos autoritários que embolam o meio de campo, mas tal jogo é insuficiente em seu afã de esperteza para salvar uma dignidade que sabem abalada.

Na dimensão do tempo, o cinema de Ugo Giorgetti fez um movimento de incorporação dramática do passado que exigiu uma gradativa expansão dos espaços até chegarmos ao que acontece em O Príncipe, filme em que São Paulo é não apenas o palco mas talvez a personalidade maior do drama. No caminho houve Boleiros (1997) que inaugurou essas tensões que surgem do cotejo entre o presente, de onde partem as indagações, e o passado. Lá havia um lugar privilegiado - o restaurante, ponto de encontro dos velhos boleiros - mas este se alternava com outras locações trazidas pelos flashbacks gerados pela conversa à mesa, sob os olhares das fotos na parede a evocar glórias passadas. A atmosfera era de nostalgia e, conforme o caso, podia ir de um vago mal estar ao desespero diante do presente sem promessas, sem dinheiro, sem glamour.

Em O Príncipe, esse descompasso entre presente cinza e passado promissor é mais inglório, o que leva ao limite a contradição de um grupo de profissionais da cultura que viveu, na juventude, o sonho da transformação social e que exibe hoje as marcas de uma adesão oportunista ao império do marketing ou a expressão triste de uma marginalização resignada. De qualquer forma, a gesticulação maníaca de uns e a depressão de outros compõem o senso mais fundo de uma derrota do pensamento que o filme inventaria. Não há espaço para a elegia, ou para observações nuançadas, pois um sentido de urgência na reflexão atravessa a cidade para expor o regime dos olhares entre a ostentação vertical, a arquitetura agressiva da cultura do dinheiro, e o desfile horizontal de violência e miséria nos vazios da cidade, ou na configuração dantesca da praça pontuada pela fogueira dos sem-teto no centro da cidade (a citação do poeta aí é literal).

Não há flashbacks. Apenas uma ou outra fotografia antiga, e evocações trazidas pelos diálogos conduzidos por Gustavo. Ele retorna ao Brasil depois de 20 anos e se confronta com a cidade, estranhando o caos e a violência na antiga rua pacata onde morava, reencontrando velhos amigos que, segundo ideologia e temperamento, explicam, com euforia (o agente cultural), sarcasmo (o jornalista) ou perplexidade (o amigo judeu), a natureza própria do país em que se vive. Enfim, a era do Principe (FHC?), se assim permite a escolha do título que, em sua conotação assumida, evoca a Renascença em duas chaves: a do Príncipe de Maquiavel, em que valem as ações calculadas, o pragmatismo orientado pela razão de Estado (ou da grana), e a do Príncipe da indecisão, modelo hamletiano da melancolia aqui encarnado no próprio protagonista. O quadro com que Gustavo se depara é tão desolador que a sua inércia reivindica um ar virtuoso mesmo que ele não diga nem faça nada de relevante, exceto algum gesto, ainda assim tímido, na esfera familiar onde se vive o drama do sobrinho internado numa clínica após chocar os superiores com as teorias expostas em suas aulas. Espelho da crise, Mário é o elo vulnerável da corrente face a um contexto vulgar e cafajeste. Seu protesto é o elogio da mentira e da falsa história como solução nacional, o que leva a lógica da aparência, que nos comanda, ao absurdo.

Gustavo compreende, afaga. No entanto, tal como a fotógrafa, mulher de Mário, registra, lamenta, mas não se move. No mesmo diapasão, ele adia até o fim o encontro com a velha paixão, Maria Cristina, momento fugaz em que ambos reconhecem a autoanulação e os sonhos perdidos. Após tal exposição de desencanto, resta de novo o aeroporto que Gustavo procura não mais em pleno rescaldo da experiência jovem mal trabalhada, mas já na melancolia das cinzas definitivas que reconhece naquele que é, sem dúvida, seu momento mais inspirado: a frase final diante de uma turista sebosa.
Restam na lembrança o sarcasmo de Renato, o jornalista, ou a razão cínica de Esteves, caricatura consciente do estilo de vida dos ilustrados da nova classe feliz por sua inserção na rede internacional do brilho fashion onde o importante é o "ter estilo", exibir-se num mundo onde a cultura se faz distinção sob o regime das empresas que, com muito subsídio, controlam a festa. O que veio de Paris usufruiu em silêncio tático o respeito derivado de seu endereço, forma de esconder o seu próprio blefe que Arão, o amigo judeu, sensível no desencanto, percebeu. Enquanto isto, o cineasta refinou seu olhar sempre dirigido aos pequenos teatros que asseguram poder ou dão ilusão de segurança naqueles terrenos cuja regra é a agressão, a indiferença, a instrumentação do outro, com a honrosa exceção da pequena comunidade dos boleiros. O Príncipe é a travessia, pelos espaços corroídos, de um contexto urbano apto a simbolizar uma estação fúnebre que, como sugerido, não resulta apenas de um problema de geração.

* Ismail Xavier é teórico de cinema, professor da ECA-USP, autor de O Cinema Brasileiro Moderno, Alegorias do Subdesenvolvimento - Cinema Novo, Tropicalismo, Cinema Marginal, Sertão Mar : Glauber Rocha e a Estética da Fome, Sétima Arte: Um Culto Moderno e O Discurso Cinematográfico: A Opacidade e a Transparência, entre outros livros.

Texto publicado originalmente no folder do Encontro com o Cinema Brasileiro,
do Centro Cultural Banco do Brasil - São Paulo (junho 2002).


Conheça os críticos que criaram o site e sua proposta.
Todo o conteúdo © 2002 Críticos.com.br. Todos os direitos reservados.
By CANVAS