FESTIVAL DE GRAMADO: SOBRE FILMES, CRÍTICOS E PRÊMIOS

Por MARCELO JANOT*
19/07/2002

O 30o Festival de Gramado, que terminou no último dia 17, revelou algo mais que a nova safra de longas de ficção e documentários nacionais e a decepcionante seleção de curtas-metragens em 35mm. Chamou a atenção, sobretudo, o jeito como público, jurados oficiais e os chamados críticos de cinema olharam para a tela.

Em todos os festivais sérios, o júri da crítica é escolhido com rigor seja por algum órgão regulador da categoria (no caso dos festivais estrangeiros, a FIPRESCI), seja por algum crítico de renome escolhido pela coordenação do festival para organizar este júri. O ideal é que o número de integrantes não seja grande, para que a escolha seja feita através de profundo debate.

Gramado é o único festival brasileiro, quiçá do mundo, em que o júri da crítica é composto por cerca de 30 integrantes. Eles não são escolhidos por ninguém. A coordenação do festival apenas estipula uma data para a votação, eles aparecem e votam. A maioria sequer se conhece. Não se sabe se os que ali estão são críticos profissionais ou não. Aparentemente, são jornalistas cobrindo o festival para jornais, revistas, rádios, sites ou televisão. Daí a exercerem crítica de cinema nestes veículos, é outra história. Talvez tenha sido por isso que o júri da imprensa (ops, da crítica) premiou somente filmes com forte apelo popular, ao invés de guiar-se pelos valores estéticos/narrativos que deveriam permear a análise fílmica. Desta feita, obviamente que uma obra de arte belíssima como La Perdición de Los Hombres, de Arturo Ripstein, perderia o prêmio da crítica de melhor longa latino para El Hijo de la Novia, de Juan José Campanella, filme competente e digno, previamente indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e cheio de elementos melodramáticos daqueles que o fazem cair nas graças do público. Quando a "crítica" tem mais cara de público do que de crítica, o resultado não poderia ser outro - e a derrota do filme de Ripstein acabou sendo uma vergonha para a reputação da classe.

Com o prêmio da crítica para melhor longa nacional (optou-se por juntar ficção e documentário) aconteceu o mesmo. Durval Discos, de Anna Muylaert, é o equivalente cômico de El Hijo de la Novia, e agradou em cheio ao público e aos "críticos-público". Só que enquanto o filme argentino é uma realização bem-feita e redonda, o brasileiro nunca é o filme que promete ser. De crônica do cotidiano de um saudosista dono de loja de LPs e sua mãe onipresente, o filme se transforma repentinamente numa comédia de humor negro sobre o processo de enlouquecimento da mãe depois que uma menina seqüestrada é abandonada na casa deles. O problema é que o humor logo se transforma em histeria e a sucessão de acontecimentos, que por hora buscam o caminho do surrealismo, parece artificial demais. A melhor coisa do filme é, sem dúvida, o bom gosto de sua trilha sonora, que intercala pérolas de Jorge Ben, Novos Baianos, Tim Maia, Luiz Melodia, etc, e em certos momentos é bem utilizada na trama.

O "crítico-público", como o público, vai sempre preferir a ficção ao documentário, e isso explica por que um filme como Durval Discos tenha derrotado Edifício Master, de Eduardo Coutinho. O diretor de Cabra Marcado Para Morrer, Santo Forte e Babilônia 2000 reafirma a genialidade de seu estilo próprio de documentário, calcado na força dos depoimentos de gente comum, nesse caso moradores de um edifício de classe média de Copacabana. Exibido em Gramado à tarde, numa sessão gratuita em que boa parte da platéia era composta pelas histéricas adolescentes caçadoras de autógrafos, o filme de Coutinho conseguiu a proeza de fazer com que até mesmo este público, mais interessado em quem está na platéia do que na tela, permanecesse atento durante as duas horas de projeção.

Felizmente, os júris oficiais redimiram a crítica premiando como melhor filme latino e melhor documentário La Perdición de Los Hombres e Edificio Master, respectivamente. Na categoria de documentário, concorreu também outro estudo de personagens, Nem Gravata Nem Honra, de Marcelo Masagão, que embora criativo na forma não tem força nos depoimentos, e nem de longe possui o impacto de seu brilhante filme anterior, Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos. Os outros dois concorrentes foram A Cobra Fumou, de Vinícius Reis, e Onde a Terra Acaba, de Sérgio Machado.

No primeiro, o diretor bebe na fonte de Coutinho, colocando o entrevistador como figura ativa do filme, e acertadamente consegue tirar o tom solene que podia se esperar de um documentário de exaltação à memória dos combatentes da FEB que lutaram na Segunda Guerra Mundial. Embora o depoimento dos veteranos não narre com tanta clareza as aventuras das operações de guerra como em Senta a Púa, de Eric de Castro (o primeiro filme da série), Vinicius faz seu filme render quando mostra os contrastes entre os militares que hoje vivem em amplos apartamentos da zona sul e aqueles de baixa patente que moram num conjunto residencial no subúrbio do Rio. Além disso, ainda impregna a fita com tons emotivos similares aos de Caro Diário, de Nani Moretti, refazendo o trajeto dos expedicionários que combateram na Itália.

Onde a Terra Acaba faz justiça à memória de Mário Peixoto, diretor da obra-prima do cinema mudo Limite. Trata-se de um belo documentário de formato clássico, que lembra a longa vida e a curta carreira de Peixoto, concentrando-se em seu filme inacabado, que dá título ao documentário. Imagens e depoimentos raros de Mário Peixoto são costurados com extremo bom gosto pelo diretor Sergio Machado, que faz seu filme fluir como num mar sem tormentas, embalado pelas Gymnopedies de Eric Satie e pela narração sóbria de Matheus Nachtergaele. Derrotado por Edifício Master, Onde a Terra Acaba acabou levando merecidamente o prêmio especial do júri.

Em compensação, na categoria melhor longa brasileiro de ficção, o júri presidido por Ruy Guerra surpreendeu ao acompanhar o gosto do público, dando sete prêmios (inclusive melhor filme, direção e roteiro) para Durval Discos. Infelizmente não pude assistir ao filme de Helvécio Ratton, Uma Onda No Ar, mas não há dúvidas de que Dois Perdidos Numa Noite Suja, de José Joffily, e Separações, de Domingos Oliveira, tinham mais qualidades cinematográficas que Durval Discos.

O filme de Joffily ousa ao levar o universo de Plínio Marcos para Nova York, onde o tema da imigração clandestina ajuda a conferir contemporaneidade a um texto de quatro décadas atrás. A forma como a câmera retrata, claustrofobicamente, o embate entre os dois personagens lembra o também ousado Um Copo de Cólera, de Aluizio Abranches, outro filme quase todo centrado no confronto verbal de dois elementos. Incomoda no filme de Joffily apenas a assepsia fake do galpão onde habitam os personagens.

Separações, de Domingos Oliveira, é praticamente uma continuação de Amores, seu filme anterior. No mesmo estilo confessional e divido em capítulos que anunciam as diversas etapas cíclicas de um relacionamento, embora não tenha o mesmo frescor o filme delicia o espectador com as sempre inteligentes observações do diretor-ator, e só não foi mais ovacionado porque tem duas horas de duração e começou a ser exibido às 23h30, encerrando uma maratona de três filmes e premiação de curtas que começou às 16h. Assistir a um filme como Separações exausto e com fome não tem a menor graça.

A competição de curtas-metragens em 35mm foi tão fraca que acabou proporcionando a única unanimidade do festival: o excelente Como Se Morre no Cinema, de Luelane Loila Corrêa, levou os prêmios de melhor filme segundo os júris oficial, popular e da crítica. A idéia de recontar, sob a ótica do papagaio que participou de Vidas Secas, a polêmica que a morte da cachorra Baleia causou em Cannes, é absolutamente genial. E Luleane o faz de forma criativa, dosando na medida certa as inserções documentais com a ficção.

Veja a relação completa dos premiados em www.festcinegramado.com.br

* Marcelo Janot viajou a convite da organização do Festival de Gramado

 


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