Promoção TUDO SOBRE O OSCAR

CARNAVAL EM BOA HORA

Por FERNANDO ALBAGLI
05/07/2002

A ESTRÉIA

Filmado entre 14 de outubro de 1935 e 5 de janeiro de 1936, nos estúdios da Cinédia, Rio de Janeiro, Alô, Alô, Carnaval teve uma sessão de gala no dia 15 do mesmo mês, patrocinada por Francisco Serrador. No dia 20 de janeiro, estreou no mesmo cinema, o Alhambra, um daqueles arrendados pelo quase lendário empresário exibidor, principal responsável pelos acontecimentos da badalada Cinelândia da época. Como diriam os jornais daquela década, foi "um retumbante sucesso". O filme ficou um mês inteiro em cartaz na sala lançadora e, depois, correu o Brasil, sempre levando muita gente por onde passasse.

O REALIZADOR

Adhemar de Almeida Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro, em 1901. Talvez ninguém tenha exercido tantas atividades diferentes em cinema. Foi historiador, crítico, produtor, diretor, ator, argumentista, roteirista, editor de revista especializada - Cinearte (1926-1942) - e criador do primeiro grande estúdio do Brasil - Cinédia (1930 aos dias de hoje) - atualmente comandado com muita garra por sua filha Alice Gonzaga. A Cinédia foi responsável por vários cine-jornais, cerca de 400 curtas-metragens e mais de 50 longas cariocas, produzindo para Humberto Mauro (Ganga Bruta), Oduvaldo Vianna (Bonequinha de Seda), Luiz de Barros (O Cortiço), Gilda Abreu (O Ébrio), Chianca de Garcia (Pureza), entre tantos outros.

O FILME

Alô, Alô, Carnaval! não é simplesmente um filme, mas principalmente uma viagem. E não apenas ao passado do cinema brasileiro, mas à música popular, à ingenuidade do humorismo da época, ao contato com artistas hoje esquecidos. As longas tomadas sem cortes, de câmera imóvel, foram ditadas não por estilo mas por receio de que os movimentos interferissem na qualidade do som, captado por outro craque, o futuro diretor Moacyr Fenelon, um dos fundadores da Atlântida e, como Gonzaga, batalhador do cinema brasileiro.

Aliás, a ficha técnica do filme é recheada de gente competente, em vários setores: João de Barro, Edgar Brasil, Ruy Costa, J.Carlos, Benedito Lacerda...

Com certeza, os mais velhos vão se deliciar lembrando e os mais novos conhecendo Joel e Gaúcho, as Irmãs Pagãs, o pianista Muraro, Jorge Murad, o Bando da Lua, Mário Reis, Francisco Alves, Dircinha Batista, Almirante, Barbosa Júnior, Jayme Costa, Carmen e Aurora Miranda e até um Oscarito aos 29 anos, ainda sem o jeitão que o faria famoso, assim como um Chaplin antes de Carlitos.

Adhemar Gonzaga insistiu num mínimo roteiro, para que o filme não se transformasse apenas num show de variedades com artistas de rádio. Só não se entende bem porque foram necessários João de Barro, Alberto Ribeiro, Ruy Costa e o próprio Gonzaga para inventar o fiozinho de história que liga as piadas ingênuas e os números musicais: Arthur (Barbosa Júnior) e José (Pinto Filho) estão completamente duros mas com tantas idéias (quanto dívidas) para montar uma revista que se chamaria Banana da Terra. Eles procuram um empresário (Jayme Costa) que se recusa a financiar o espetáculo porque já tinha contratado uma companhia de Paris. Pouco depois, os franceses rompem o compromisso e deixam o empresário na mão. Ele, então, recorre aos dois autores e acaba montando a revista.

Claro que se pode encarar o filme como uma crítica ao preconceito e à falta de apoio ao cinema brasileiro. Ele já tinha muito das chanchadas que floresceram depois, não apenas pelo desfile dos números musicais entremeados de piadas, mas pelo próprio argumento do espetáculo dentro do espetáculo, aquele tema das dificuldades de artistas com talento e sem grana, que se repetiria várias vezes no cinema das duas décadas seguintes.

Vale, com certeza, uma ida ao cinema numa reverência e com o respeito que se deve ter (para citar o crítico Sérgio Augusto) por "um tesouro arqueológico".

CURIOSIDADES DA PRODUÇÃO

- A única imagem em movimento que se tem do compositor Lamartine Babo é a do número As Armas e os Barões, que ele interpreta com Almirante.
- Aracy de Almeida ia interpretar uma lavadeira em Palpite Infeliz, de Noel Rosa. Desistiu e retirou-se quando pessoas da equipe fizeram piadas sobre a sua roupa.
- No número Tempo Bom, com Heloísa Helena, rapazes da sociedade, que foram convidados para acompanhar sambando, só entraram no ritmo depois de farta distribuição de uisque.
- Dircinha Batista tinha apenas 13 anos, quando interpretou Pirata da Areia. Por isso, seu pai a acompanhava nas filmagens e também era o responsável por sua maquiagem.
- As filmagens eram sempre de madrugada. A maioria dos cantores ia para a Cinédia depois do trabalho nas estações de rádio. - Gravar com som direto foi conseguido quando a equipe passou a esconder o microfone em peças do cenário. Exatamente como é parodiado em Cantando na Chuva, mas com melhores resultados.
- Na paródia de Jayme Costa, travestido de mulher, sobre uma serenata de Liszt, a voz em falsete é de Francisco Alves, gravada em playback.
- As modernas e ousadas roupas de Carmen Miranda, inclusive as que ela usa no filme, eram desenhadas por ela mesma. Seus números no filme são dos raros em que a "pequena notável" não aparece vestida de baiana.

A RESTAURAÇÃO (Trechos de um depoimento de Alice Gonzaga)

"O processo de restauração das matrizes de Alô, Alô, Carnaval começou logo após a enchente que atingiu a Cinédia, em 1996. Colocamos o projeto na Lei Rouanet e buscamos patrocínio. A restauração seria feita nos Estados Unidos e custaria cerca de 450 mil reais. No final de 2000, a Petrobras Distribuidora acolheu o trabalho. Tínhamos modificado a estratégia, pois o Brasil já tinha condições técnicas de realizar a restauração. A pesquisa e a preparação do trabalhou demoraram um ano. A restauração começou em agosto de 2001 e terminou em março de 2002, com um custo de 270 mil reais."

"Em 1974, quando meu pai fez a remontagem do filme, acompanhei o trabalho de perto. O montador Jayme Justo teve muita paciência com ele, que gritava e reclamava da falta de muitas cenas. Como num milagre, as cenas foram encontradas muito tempo depois. Nesse período, meu pai sempre fazia muitas anotações e marcações. Foi isso que nos permitiu, agora, acertar o filme para a restauração. Ele também reclamava do número das Cantoras do Rádio, muito escuro, com som deficiente e incompleto. Já tínhamos iniciado o trabalho, quando esse número foi encontrado na Cinemateca Brasileira."

NÚMEROS MUSICAIS por ordem de apresentação

Mimi (Ari de Calazães Fragoso). Intérprete: Luiz Barbosa.

Pierrot Apaixonado (Noel Rosa e Heitor dos Prazeres). Intérpretes: Joel e Gaúcho.

Não Beba Tanto Assim (Geraldo Decourt). Intérprerte: Irmãs Pagãs.

Seu Libório (João de Barro e Alberto Ribeiro). Intérprete: Luiz Barbosa.

Maria Acorda que é Dia (João de Barro e Alberto Ribeiro). Intérprete: Muraro, no piano.

Molha o Pano (Getulio Marinho e Cândido Vasconcelos). Intérpretes: Aurora Miranda e conjunto regional de Benedito Lacerda.

Negócios de Família (Assis Valente de Hervê Cordovil). Intérprete: Bando da Lua.

Tempo Bom (João de Barro e Heloísa Helena). Intérprete: Heloísa Helena.

Teatro da Vida (A. Vitor). Intérprete: Mário Reis.

Maria Acorda que é Dia (João de Barro e Alberto Ribeiro). Intérpretes: Dulce Weytingh, Joel e Gaúcho.

Comprei uma Fantasia de Pierrot (Alberto Ribeiro e Lamartine Babo). Intérprete: Francisco Alves.

As Armas e os Barões (Alberto Ribeiro). Intérpretes: Lamartine Babo e Almirante.

Amei (Eratóstenes Frazão e Antônio Nássara). Intérprete: Francisco Alves.

Muito Riso e Pouco Sizo (João de Barro e Alberto Ribeiro). Intérpretes: Dircinha Batista e os Quatro Diabos).

Pirata da Areia (João de Barro e Alberto Ribeiro). Intérpretes: Dircinha Batista e Orquestra Hervê Cordovil.

Canção do Aventureiro (paródia de Alberto Ribeiro sobre ária de O Guarani. Intérpretes: Barbosa Júnior e Muraro.

50% de Amor (Lamartine Babo). Intérprete: Alzirinha Camargo.

Não Resta a Menor Dúvida (Noel Rosa e Hervê Cordovil). Intérprete: Bando da Lua.

Manhãs de Sol (João de Barro e Alberto Ribeiro). Intérpretes: Francisco Alves e Orquestra Hervê Cordovil.

Sonhos de Amor (paródia da serenata de Liszt). Intérpretes: Jayme Costa (com voz de Francisco Alves em falsete).

Cadê Mimi (João de Barro e Alberto Ribeiro). Intérprete: Mário Reis.

Querido Adão (Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago). Intérprete: Carmen Miranda.

Cantoras do Rádio. (João de Barro, Lamartine Babo e Alberto Ribeiro). Intérpretes: Carmen e Aurora Miranda e Orquestra Simão Boutman.

ALÔ, ALÔ, CARNAVAL!
Produção: ADHEMAR GONZAGA e WALLACE DOWNEY
Direção: ADHEMAR GONZAGA
Roteiro: RUY COSTA e ADHEMAR GONZAGA
Fotografia:ANTÔNIO MEDEIROS, EDGAR BRASIL e VICTOR CIACCHI
Montagem:ADHEMAR GONZAGA, AFRODÍSIO PEREIRA DE CASTRO e MOACYR FENELON
Música: MAESTRO JOAQUIM CORREA RONDON (orquestrações)
Elenco:JAYME COSTA, BARBOSA JR., PINTO FILHO, JORGE MURAD, ÁLVARO ROCHA, DARIO MELO PINTO, DIDI VIANNA, HERVÊ CORDOVIL, OSCARITO, PERY RIBAS.
Duração: 75minutos
 


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