Promoção TUDO SOBRE O OSCAR

ABBAS KIAROSTAMI EM TERRA ESTRANGEIRA

Por CARLOS ALBERTO MATTOS
28/06/2002

Quando esteve no Brasil em 1994, durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Abbas Kiarostami seguiu, durante horas, uma menina de rua pela Avenida Paulista. O diretor iraniano estava impressionado com o número de famintos que via pelas calçadas paulistanas. Tentava colocar um hambúrguer ao alcance da menina sem que ela percebesse. "Não há nada de novo na fome humana", refletiu no texto em que, mais tarde, relataria essa pequena aventura humanitária. Talvez esteja ali, nessa deambulação por terra estranha, a semente do documentário ABC África, que ele realizaria sete anos depois.

Kiarostami é o cineasta das crianças e do compromisso. Talvez por isso chegou às suas mãos o convite de um organismo da ONU para que visitasse Uganda e conhecesse o trabalho da UWESO, um programa de ajuda aos quase 2 milhões de órfãos da guerra civil e da Aids. Kiarostami e seu assistente Seifollah Samadian desembarcaram em Kampala com duas pequenas câmeras MiniDV para "tomar notas", fazer um rascunho de documentário. As notas acabaram virando o próprio filme. Kiarostami já disse que os rascunhos geralmente são melhores que os filmes em si. No documentário, isso é ainda mais verdadeiro que na ficção.

ABC África foi exibido na última Mostra de São Paulo, e é possível que nunca chegue ao circuito brasileiro. É uma pena, já que representa um recomeço na carreira desse cineasta admirável.

O que o distingue não é somente o uso extensivo/exclusivo do vídeo digital (as últimas imagens de O Gosto da Cereja foram feitas nessa mídia). Kiarostami troca a fronteira poética entre ficção e documento para encarar de frente uma realidade nua e crua. E sobretudo lança, pela primeira vez, seu olhar compassivo e solidário a uma realidade muito distante da iraniana. Ele havia prometido rodar um filme no Brasil, mas foi Uganda que acabou merecendo a primazia.

Sem esconder que se trata de um filme de encomenda, Kiarostami começa por mostrar o fax-convite recebido. Em vários momentos, um discurso direto expõe os propósitos da iniciativa: atrair a atenção do mundo não apenas para o drama da miséria e da enfermidade endêmica que roubam a vida de adultos, crianças e bebês ugandenses, mas também para as vitórias das mulheres da UWESO na luta contra o abandono, a incultura e a tristeza. Mas uma vez na locação, Kiarostami e Samadian não se atêm ao registro estrito do que foi encomendado. Ao contrário, deixam-se levar pelas reinações da criançada, pelo imprevisto dos deslocamentos a pé ou de carro e, principalmente, pela música e o colorido dos tecidos africanos. Chegam a estetizar a paisagem humana do lugar com trechos em slow motion, um sacrilégio pelos cânones do documentário tradicional.

Kiarostami não está ali para um trabalho de pura objetividade, mas para gravar a sua presença no cenário remoto. A pequena equipe não disfarça a condição de estrangeiros, temerosos dos mosquitos e da malária, admirados com as noites negras sem luz elétrica. Na edição final, eles privilegiaram esses momentos onde a câmera absorve plenamente a subjetividade da equipe. Daí as freqüentes seqüências de canto, dança e documentação de sabor etnográfico. Ou os cerca de 5 minutos de tela negra, cortada aqui e ali por um raio, quando se ouve apenas uma conversa da equipe sobre o espanto de estar ali, vivenciando aquela noite trevosa.

ABC África não foge, porém, de sua missão oficial. Visita um hospital de bebês aidéticos e acompanha os funerais de um deles, em momentos dilacerantes. Ouve as mulheres da UWESO falarem da imensa tarefa de minorar o sofrimento e garantir um futuro mínimo para o seu povo, numa terra onde a população masculina foi quase toda dizimada pelos conflitos e o vírus HIV. De soslaio, registra outdoors de preservativos censurados em áreas católicas e cartazes elegendo a virgindade como a melhor proteção contra a Aids. São anotações que, apesar de rápidas, deixam entrever todo um contexto que o filme, explicitamente, não se encarrega de aprofundar. Afinal, não se trata de um documentário sobre Uganda, mas sobre a visita de um forasteiro interessado em colaborar. Ao aceitar esse limite, e agir de acordo com ele, Kiarostami dá mais uma prova de seu talento e honestidade.

Ao que parece, o mestre iraniano gostou muito da experiência africana. Soltou o estilo, redescobriu a música, apaixonou-se pelo DV e percebeu-se enfim como um cineasta do mundo. ABC África não chega a ser um grande Kiarostami, mas pode marcar um turning point em sua trajetória. De quebra, ainda dá uma lição sobre o cinema como projeto pessoal - assim como um livro, uma pintura ou uma viagem.
 


Conheça os críticos que criaram o site e sua proposta.
Todo o conteúdo © 2002 Críticos.com.br. Todos os direitos reservados.
By CANVAS